"Film has the magic quality of being able to photograph thought" - Nicholas Ray, in "I Was Interrupted"
segunda-feira, março 30, 2009
Pequenas Alegrias - Love Letter to Japan
domingo, março 29, 2009
"Espectadores de Elite" e "Espectadores Irrequietos"
“Na apresentação, em Lisboa, Serra, talvez com alguma ironia, apelidou-se o melhor realizador espanhol desde Buñuel, e queixou-se de uma incompreensão geral do público. Claro que os seus filmes estão reservados a uma elite. Uma elite esteticamente sofisticada, capaz de apreciar a beleza de uma boa fotografia, conhecedora da história do cinema e da sua cumplicidade com as outras artes, e sem sono. Os planos fixos, a montagem minimal, a reduzida acção, repudiam os espectadores mais irrequietos.”
Manuel Halpern, crítica a “O Canto dos Pássaros” de Albert Serra, in JL – Jornal de Letras e Ideias, nº 1004
Não sei o que é pior nesta citação. Não sei se é a típica vitimização do realizador (porque a culpa da má recepção de uma obra é sempre dos espectadores, esses malandros!, nunca do criador, que está sempre à frente do seu tempo...) misturada com uma auto-glorificação que não funciona nem como blague ou, antes, a curiosa descrição da “elite esteticamente sofisticada” que o crítico Manuel Halpern faz.
Acabei por me encontrar mais perturbado com esta assustadora ideia de uma espécie de “espectador de elite”, como se quem for “conhecedor da história de cinema, da sua cumplicidade com as outras artes” e não tiver sono não possa, de maneira alguma, não gostar deste filme. Como se quem aprecie fotografia e não tenha problemas com filmes mais “lentos” não posso achar esta obra oca e superficial porque, se o fizer, passa à categoria de “espectador irrequieto”, uma espécie de mentecapto que não pertence “à elite sofisticada” que sabe como se deve, verdadeiramente, apreciar o cinema. Esta é, simultaneamente, uma visão redutora das pessoas que participam nesse fabuloso ritual que é ver um filme e uma visão “clubista” da arte cinematográfica que só se pode lamentar.
segunda-feira, março 09, 2009
Vicky Cristina Barcelona - Cómica Angústia

Não consigo deixar de ficar impressionado com o modo desinteressado como algumas pessoas acolheram a mais recente obra de Woody Allen. Falou-se aqui e ali de uma obra menor, de um filme feito quase “de encomenda”, “a despachar”, com actores atraentes a fazerem bons números e o realizador a entreter-se filmando belas imagens de “bilhete postal” de Barcelona e de Espanha, faunas bem diferentes da sua mui familiar Nova Iorque, palco quase natural do seu universo cinematográfico. Em suma, uma comédia light agradável, estival, bem construída, mas esquecível e, sobretudo, irrelevante no contexto da obra de Allen.
Ora, não sendo “Vicky Cristina Barcelona” um “Annie Hall” (nem tendo obrigação de o ser), o que temos neste filme enganadoramente descontraído é um discurso incrivelmente angustiante sobre as relações amorosas, com um ponto de vista pessimista que faz lembrar algumas obras de Ingmar Bergman. Há comedia, sim, há vários momentos em que nos rimos alegremente do que se está a passar no ecrã – mas o modo como o realizador desconstrói dois pontos de vista absolutamente antagónicos sobre o amor (uma visão, mais “conservadora”, de Vicky e outra, mais “liberal” de Cristina) e nos mostra o imenso vazio das personagens após todos os acontecimentos atribulados por que passam no Verão que o filme relata relembra-nos de que estamos perante uma análise das relações humanas (e das nossas noções do amor) que não é nada superficial.
Como praticamente todos os filmes de Woody Allen, esta é uma obra que realça o trabalho dos actores, e é quase óbvio destacar a prestação premiada de Penélope Cruz como um exemplo de como é possível dar vida a uma cena só pelo modo como uma personagem se mexe. Mas gostaria de referir especialmente o trabalho de Rebecca Hall, cujo nome tem sido, por vezes, injustamente ofuscado pelos do restante elenco principal. Hall tem aqui uma personagem muito mais difícil do que parece - o de uma mulher intelectual, conservadora, repleta de conflitos internos e várias contradições. Seria muito fácil cair no cliché da mulher tradicionalista frustrada, mas Hall consegue conferir à personagem uma dimensão bem mais profunda com o seu desempenho. Nesse sentido, embora Scarlett Johansson não esteja mal, a sua performance não é tão rica em nuances e na exposição de um mundo interior mais perturbado do que parece como a de Hall – é um trabalho conseguido, mas bem longe dos resultados fabulosos obtidos em obras como “Lost in Translation” ou “Match Point”. Javier Bardem, por sua vez, desempenha o seu papel com charme e inteligência e consegue que o seu artista-macho-cool seja mais complexo e interessante do que se poderia pensar à primeira vista.
O argumento de que esta é uma visão turística de Barcelona também me parece algo bizarro – se a narrativa parte do ponto de vista de duas turistas norte-americanas que vêm ou desenvolver uma tese (Vicky) ou passar férias (Cristina) no coração da Catalunha, é natural que a imagem, adequadamente, siga um ponto de vista turístico, isto é, a de alguém exterior àquele mundo, que só o consegue conhecer parcialmente. O objectivo não é fazer um filme sobre a realidade de Barcelona, mas sim o de acompanhar aquelas duas mulheres na sua viagem exterior e interior. Está coerente com a história que se pretende contar e apetece dizer que estranho seria se fosse de outra forma.
Esperemos, pois, que o Óscar atribuído a Penélope Cruz permita alguma reavaliação do filme – ou, pelo menos, uma catalogação mais interessante do que a de simples “Postal Ilustrado”.
terça-feira, fevereiro 24, 2009
Slumdog Millionaire
sexta-feira, fevereiro 13, 2009
Nuno Bragança e uma sugestão...
quinta-feira, fevereiro 12, 2009
A Arte da Montagem - Uma Conversa entre Walter Murch e Michael Ondaatje


quarta-feira, janeiro 14, 2009
O que é a Montagem (I)
O enunciado teórico pode resumir-se à seguinte ideia: o posicionamento de um primeiro plano neutro em relação a um segundo plano neutro cria uma sequência cujo significado é inteiramente construído pelo espectador. Ou seja, a justaposição permite-nos estabelecer ligações entre dois planos que, por si só, nada dizem.
O seguinte vídeo ilustra o efeito na sua forma mais básica, procurando recriar a mesma sucessão de imagens montada por Kulechov a partir de planos do rosto do popular actor de teatro Mosjoukine posicionados com imagens tão diversas como a de um prato de sopa, a de um caixão de uma criança ou a de uma mulher deitada num divã:
Ainda hoje, o efeito Kulechov pode ser visto em toda a sua potência nas mais diversas obras audiovisuais contemporâneas (filmes, séries, clips, telenovelas, publicidade, etc). Veja-se a divertida explicação da aplicação prática do efeito dada por Alfred Hitchcock, que tão bem utilizou os princípios teóricos de Kulechov em toda a sua obra:
Uma versão mais alargada desta entrevista pode ser encontrada aqui. Há só que perdoar a má legendagem em castelhano...
* - É conveniente referir que a grafia do nome do realizador russo tem uma estranha variação conforme a língua dos textos que se consultar - em inglês, é habitual aparecer escrito como "Lev Kuleshov", com "s"; porém, os textos em francês costumam utilizar "Kulechov" - optei por utilizar a segunda hipótese, muito embora esteja consciente de que posso estar errado e de que não tenho quaisquer conhecimentos de russo que me permitam ter autoridade para determinar a transcrição correcta...
segunda-feira, dezembro 15, 2008
Em defesa da cultura e das ideias
segunda-feira, dezembro 08, 2008
"My theory that you should see a movie on a big screen is sound, but utopian."
A frase que serve de título a este post foi escrita pelo crítico Roger Ebert na conclusão do seu artigo sobre os melhores filmes de 2008 e surge a propósito do estado pouco recomendável da distribuição de filmes nas salas de cinema dos EUA.
De facto, um dos aspectos que mais pode chamar a atenção no texto de Ebert sobre o ano cinematográfico que agora chega ao fim é o facto de que vários dos títulos mencionados são uma completa incógnita não só para espectadores deste lado do oceano Atlântico como, também, para os do país onde tal lista foi elaborada. Da mesma maneira que é difícil para um espectador português ter a diversidade e a possibilidade de escolha de um congénere parisiense, no país que mais filmes exporta para todo o mundo também pode ser uma odisseia conseguir ver a mais recente obra de um realizador conceituado simplesmente porque se vive no Kentucky e não em Nova-Iorque.
É aqui que os novos suportes de distribuição digital desempenham um papel deveras importante, como confirma Ebert ao afirmar que "This is a time when home video, Netflix and the good movie channels come to the rescue." De facto, torna-se muito difícil contestar o poder do DVD, dos Blu-Ray e dos downloads (legais ou não, isso é outra história...) na divulgação de filmes que, normalmente, seriam barrados pelos imperativos económicos de chegarem ao(s) público(s) que os quer(em) ver. E não esqueçamos, já agora, a importância que as televisões, com especial incidência para os canais dedicados à sétima arte e aos "generalistas" que organizam ciclos, têm, através da exibição de clássicos, na formação do gosto e da cinefilia de muita gente que não tem acesso a um espaço como a Cinemateca Portuguesa. Sem estar sequer perto de perder o gosto por ver os filmes no grande ecrã, Ebert revela, nestas duas simples frases, uma frescura de pensamento em relação à evolução tecnológica do cinema que é salutar e, a meu ver, exemplar.
segunda-feira, novembro 24, 2008
Uma breve nota sobre "A Turma" de Laurent Cantet

sexta-feira, outubro 31, 2008
Duas breves sugestões para uma Noite das Bruxas cinéfila


quinta-feira, outubro 30, 2008
Revista da Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos online
segunda-feira, outubro 27, 2008
Elogio de "Mal Nascida"

Tenho estado para escrever aqui sobre "Mal Nascida", a mais recente longa-metragem de João Canijo estreada entre nós no início de Outubro num número bastante reduzido de salas e com menos "burburinho" crítico que a sua "prequela", "Noite Escura". Já passou uma semana desde que tive a oportunidade de o ver, mas tem sido difícil ordenar as ideias que o filme suscitou e colocá-las por escrito. Aqui vai uma tentativa...
Reboot
sábado, fevereiro 02, 2008
Le Roi est mort... Vive le Roi!
Infelizmente, a versão que, para já, vai para o ar é uma espécie de "compacto" da série, com dois episódios a serem "colados" um ao outro para que a totalidade da série seja exibida nestes próximos três dias em "fatias" de 90 minutos... o que pressupõe vários cortes na montagem final.
Como alguém que participou, ainda que de forma bastante secundária, na feitura desta obra, lamento com um considerável desapontamento que, de momento, tenhamos de ver uma variante "encurtada" da série por razões que me escapam completamente - fica a esperança e o desejo de que, no futuro, a versão integral seja transmitida tal como o realizador, os argumentistas, o director de fotografia, o montador e toda a restante equipa a imaginou.
De qualquer forma, não se demovam de assistir aos episódios, porque a série, na minha modesta (e, claro, não exactamente isenta) opinião, continua a ter um nível e uma qualidade inegável - para aguçar o apetite de quem ler estas linhas, deixo-vos aqui a trailer:
Espero que gostem!
quarta-feira, janeiro 23, 2008
Talk-Radio! Entrevista ao indivíduo responsável por este blog...
Da minha parte, posso dizer que a entrevista correu bastante bem (não obstante uma pequena calinada no português, uma expressão dita de forma incorrecta E uma gaffe no nome do realizador Hiroyuki Yamaga - tudo da minha autoria...), o pessoal da JPR foi de um profissionalismo acima de qualquer dúvida e conseguiu escolher bem as frases a reter de entre 45 minutos de conversa ao telefone! No programa: algumas considerações sobre o mundo do cinema (tanto lá fora como em Portugal), algumas histórias dos bastidores deste blog, a experiência de ter trabalhado com o Canto e Castro; e, claro, uma breve promo de "O Dia do Regicídio"!
Portanto, se quiserem ouvir o meu gaguejar e ficar com uma ideia da minha voz, dêem um saltinho ao site do Posta@Posta! Da minha parte, fica aqui o meu agradecimento à equipa de Diana Albuquerque, Marta Maia e Tatiana Carvalho por me terem posto à vontade e pelo interesse demonstrado por este cantinho da blogosfera! ^_^
Entrevista
http://jpr.icicom.up.pt/postaposta/
Site Jornalismo Porto Rádio
Heath Ledger (1979-2008)

sábado, dezembro 08, 2007
Pela honra de quem se mata a escrever
Mas se a greve tem sido amplamente divulgada nos media, já as razões que levaram à sua existência não têm sido suficientemente esclarecidas. Encontrei este vídeo no blog da Ardelua, e não resisto a colocá-lo aqui, pois explica, de uma forma concisa, completa e muito divertida, o busilis da questão:
Se ficarem sensibilizados, convido-vos a visitarem o blog oficial dos grevistas e a assinarem a petição online de apoio à causa dos argumentistas. O meu nome já lá está...
P.S. - E quando é que, em Portugal, os nossos profissionais do audiovisual se decidem a "bater o pé" com a mesma dignidade que os seus congéneres americanos?
domingo, novembro 18, 2007
O tamanho importa...

Ontem, pouco antes do jogo da Selecção Nacional, o noticiário da RTP apresentou um curioso alinhamento de notícias que, de certa forma, é um primoroso retrato do nosso país: a primeira reportagem falava-nos do encerramento do Cinema Quarteto por falta de condições de segurança; a isto, seguiu-se um mui pomposo bloco que nos mostrava como o país olhou deslumbrado para a inauguração da Maior Árvore de Natal da Europa no Porto.
Um dos cinemas mais emblemáticos de Lisboa, responsável pela exibição de centenas de títulos marcantes que qualquer cinéfilo que o tenha visitado não pode esquecer, ameaça fechar as portas apesar dos esforços dos seus responsáveis para corrigir a situação, mas não há problema: a nossa Árvore de Natal é maior do que as dos outros países do nosso continente! Enfim, prioridades...
domingo, outubro 21, 2007
Dario Argento Ritorna: La Terza Madre (The Third Mother: Mother of Tears)

Estreia dia 31 deste mês na Itália aquele que deve ser um (o?) dos filmes de terror mais aguardados dos últimos tempos - "La Terza Madre" de Dario Argento, o terceiro e último capítulo de uma mítica trilogia iniciada há precisamente 30 anos com o extraordinário "Suspiria" pelo realizador de obras como "Profondo Rosso" ou "Phenomena", trilogia essa interrompida (e só agora retomada) após o fracasso comercial do segundo opus, "Inferno" (1980).
A trailer, que pode ser vista aqui, está na net há já algum tempo e permite aguçar o apetite para o que aí vem. Não parece que estejamos perante os mesmos espectáculos visuais do primeiro filme (embora, diga-se de passagem, a fotografia esteja com óptimo aspecto), mas o argumento parece bastante interessante e é sempre bom saber que a música é composta por Claudio Simonetti (grande colaborador de Argento e antigo membro dos Goblin, banda responsável pela fabulosa música de "Suspiria") e que Asia Argento, a filha do realizador e uma actriz de excepção, é a protagonista.
Dario Argento declarou à revista francesa Mad Movies que este é o filme mais gore que alguma vez rodou e que foi criado no mesmo estilo das suas obras dos anos 70 (que muitos fãs consideram ser o seu período de ouro). As reacções às poucas exibições que o filme teve em festivais têm sido mistas, mas nada que tolde o entusiasmo em torno da obra.
Argento é um dos nomes de referência do cinema fantástico Italiano desde o início dos anos 70. Capaz de fazer algumas das maiores obras dos respectivos géneros ("Suspiria", "Profondo Rosso") como também títulos francamente fracos ("Trauma", "Ti Piace Hitchcock?"), os seus mais recentes trabalhos foram dois episódios para a série "Masters of Horror" - "Jenifer", na primeira temporada, e "Pelts", na segunda. O seu último filme estreado nas salas foi "Il Cartaio - O Jogador Misterioso", que foi editado em Portugal directamente em DVD numa edição unicamente dobrada em inglês. Por cá, a última obra que vimos nos ecrãs grandes portugueses foi "O Fantasma da Ópera" em... 1999.