quarta-feira, janeiro 14, 2009

O que é a Montagem (I)

Uma das pedras lapidares de toda a teoria da montagem (e do cinema tout court...) é o chamado "Efeito Kulechov". Trata-se de uma experiência formal levada a cabo pelo realizador/montador/professor russo Lev Kulechov* (com a participação de um aluno muito especial chamado Vsevolod Pudovkin) por volta de 1921 que consistia na projecção de uma sucessão de imagens perante um grupo de espectadores cujas reacções ao material com que foram confrontados fizeram história.

O enunciado teórico pode resumir-se à seguinte ideia: o posicionamento de um primeiro plano neutro em relação a um segundo plano neutro cria uma sequência cujo significado é inteiramente construído pelo espectador. Ou seja, a justaposição permite-nos estabelecer ligações entre dois planos que, por si só, nada dizem.

O seguinte vídeo ilustra o efeito na sua forma mais básica, procurando recriar a mesma sucessão de imagens montada por Kulechov a partir de planos do rosto do popular actor de teatro Mosjoukine posicionados com imagens tão diversas como a de um prato de sopa, a de um caixão de uma criança ou a de uma mulher deitada num divã:



Ainda hoje, o efeito Kulechov pode ser visto em toda a sua potência nas mais diversas obras audiovisuais contemporâneas (filmes, séries, clips, telenovelas, publicidade, etc). Veja-se a divertida explicação da aplicação prática do efeito dada por Alfred Hitchcock, que tão bem utilizou os princípios teóricos de Kulechov em toda a sua obra:



Uma versão mais alargada desta entrevista pode ser encontrada aqui. Há só que perdoar a má legendagem em castelhano...

* - É conveniente referir que a grafia do nome do realizador russo tem uma estranha variação conforme a língua dos textos que se consultar - em inglês, é habitual aparecer escrito como "Lev Kuleshov", com "s"; porém, os textos em francês costumam utilizar "Kulechov" - optei por utilizar a segunda hipótese, muito embora esteja consciente de que posso estar errado e de que não tenho quaisquer conhecimentos de russo que me permitam ter autoridade para determinar a transcrição correcta...

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Em defesa da cultura e das ideias

Ao estrear a edição espanhola do DVD da série Monster, fui presenteado, poucos segundos depois de colocar o disco no leitor, com uma publicidade anti-pirataria. Para meu espanto, não se trata do mesmo anúncio que conhecia de diversos DVDs adquiridos ou alugados nos últimos anos, mas sim de um clip original financiado pelo Ministério da Cultura de Espanha, realizado por uma equipa espanhola e dirigido especificamente ao mercado espanhol (onde, diga-se, os números de pirataria são bem grandes). E, para minha estupefacção, gostei muito do spot! 

O que tem de tão especial a publicidade espanhola? Diria, antes de mais, o tom: em vez de tratar o espectador como uma criança que deve ser assustada com as consequências de um download de um ficheiro Torrent ou de uma visita "frutífera" à Feira da Ladra, o clip visa realçar o valor da cultura e o valor das ideias na nossa existência humana, defendendo que estas têm que ser protegidas e não deixadas ao abandono. "Defende a tua cultura" é o slogan da campanha. Formalmente, o spot é construído com uma montagem lenta e suave, acompanhado de uma música calma que não me distrai da mensagem que a publicidade visa transmitir. Saio do visionamento deste spot a sentir-me respeitado por quem o fez. Consequentemente, o seu apelo toca-me.



É um contraste absolutamente notório com o outro spot a que já aludi. Quem tenha comprado DVDs (tanto nacionais como internacionais) nos últimos anos certamente já terá visto a campanha publicitária que, à falta de um título melhor, podemos designar por "Você não roubaria um filme". Este spot, que também já passou pelos ecrãs grandes, é marcado por um tom agressivo tanto a nível das mensagens de texto como das formas visuais e sonoras (a música e a montagem, em especial, parecem estar constantemente a tentar martelar na cabeça do espectador!). A moral da história é feita através da comparação entre diversas formas de pirataria (download, compra nas feiras, etc.) e o roubo de um carro ou de uma mala. E, claro, acaba com uma ameaça: esta actividade é um crime, e quem o cometer pode apanhar vários anos de prisão e uma multa dolorosa!!! Sinto que quem fez este spot pensa que o espectador é uma criança ingénua que tem de saber que se brincar com o fogo, queima-se. Mas eu não sou uma criança...




Além de tudo isto, tem uma outra característica particularmente irritante: surge no início do carregamento de cada disco e não pode ser saltado - o comando do utilizador fica bloqueado e este tem mesmo de o aturar caso queira ver o filme que o spot acompanha. Se alguém quiser ver uma série de TV (como "Alfred Hitchcock Apresenta", cuja box conta com a presença do spot), e fizer questão de ver um episódio de cada vez em sessões diferentes, vai ser forçado a gramar o clip toda e cada vez que o fizer. Outro ponto curioso: só surge em DVDs completamente legais comprados numa loja normal, constituindo, a meu ver, um dos piores incentivos inadvertidos à pirataria...*

A questão da cópia ilegal de filmes é muito mais complexa do que se pode presumir. Mas nem é isso que está em causa na comparação destes dois spots: trata-se, antes de mais, de saber e questionar o modo como as entidades culturais/industriais escolhem lidar com este problema - tratando os espectadores/consumidores como pessoas inteligentes que sabem pensar por si? Ou como uma espécie de infantes crescidos que têm de ser assustados para chegarem à razão?

*Entretanto, o spot tem sido alvo de inúmeras paródias tanto a nível amador como profissional. Deixo aqui duas particularmente bem conseguidas:

segunda-feira, dezembro 08, 2008

"My theory that you should see a movie on a big screen is sound, but utopian."

A frase que serve de título a este post foi escrita pelo crítico Roger Ebert na conclusão do seu artigo sobre os melhores filmes de 2008 e surge a propósito do estado pouco recomendável da distribuição de filmes nas salas de cinema dos EUA.

De facto, um dos aspectos que mais pode chamar a atenção no texto de Ebert sobre o ano cinematográfico que agora chega ao fim é o facto de que vários dos títulos mencionados são uma completa incógnita não só para espectadores deste lado do oceano Atlântico como, também, para os do país onde tal lista foi elaborada. Da mesma maneira que é difícil para um espectador português ter a diversidade e a possibilidade de escolha de um congénere parisiense, no país que mais filmes exporta para todo o mundo também pode ser uma odisseia conseguir ver a mais recente obra de um realizador conceituado simplesmente porque se vive no Kentucky e não em Nova-Iorque.

É aqui que os novos suportes de distribuição digital desempenham um papel deveras importante, como confirma Ebert ao afirmar que "This is a time when home video, Netflix and the good movie channels come to the rescue." De facto, torna-se muito difícil contestar o poder do DVD, dos Blu-Ray e dos downloads (legais ou não, isso é outra história...) na divulgação de filmes que, normalmente, seriam barrados pelos imperativos económicos de chegarem ao(s) público(s) que os quer(em) ver. E não esqueçamos, já agora, a importância que as televisões, com especial incidência para os canais dedicados à sétima arte e aos "generalistas" que organizam ciclos, têm, através da exibição de clássicos, na formação do gosto e da cinefilia de muita gente que não tem acesso a um espaço como a Cinemateca Portuguesa. Sem estar sequer perto de perder o gosto por ver os filmes no grande ecrã, Ebert revela, nestas duas simples frases, uma frescura de pensamento em relação à evolução tecnológica do cinema que é salutar e, a meu ver, exemplar.

segunda-feira, novembro 24, 2008

Uma breve nota sobre "A Turma" de Laurent Cantet



Como se está a tornar hábito (chato) por estes lados, só agora é que consegui ir assistir ao filme que arrebatou a Palma d'Ouro no Festival de Cannes deste ano. Mas em boa hora: "A Turma" de Laurent Cantet é, sem margem para dúvidas, uma das grandes obras cinematográficas de 2008. Espantoso tanto a nível do tratamento dos temas abordados (a educação "dentro das paredes" da sala de aula) como da própria concepção formal e narrativa, a mais recente longa-metragem do autor de "Recursos Humanos" é uma pedrada no charco que merece ser vista e discutida por toda a gente, não só por pessoas ligadas à área da educação ou do cinema.

É conveniente sublinhar que Cantet não quer pregar uma pedagogia neste filme: não estamos perante um típico "conto inspirador" de um professor que vem pôr uma turma difícil na ordem ao revelar-lhes as pessoas extraordinárias que são. François, o professor e protagonista da história, é um ser humano falível, capaz tanto de conduzir uma aula de uma turma problemática com inegável mestria como de errar, de assumir uma postura questionável perante um aluno ou até mesmo descontrolar-se. Da mesma maneira, um aluno problemático pode num momento surpreender-nos com uma atitude ou um gesto reveladores do seu real potencial como, no seguinte, voltar a confirmar más expectativas.

O ser humano enquanto ser eminentemente complexo - é este fascínio pela personagem enquanto ser falível e não como "exemplo de coerência" que eleva a dramaturgia do filme para um nível inesperadamente elevado e de uma riqueza rara. E, numa altura em que muito se fala do realismo e do naturalismo nas artes representativas, é refrescante ver uma obra que nos dá a ver o interior de uma sala de aula com uma enorme atenção ao pormenor e uma visão não estereotipada das diversas realidades que podemos encontrar nessa mesma sala.

Nesse sentido, é também fascinante descobrir os métodos de trabalho (ou, se quisermos, a aproximação) que o realizador e a sua equipa adoptaram para a feitura do filme*, centrando-se nos temas do livro sem seguir as situações à risca, dando um vasto espaço de improvisação aos seus intérpretes e usando uma estética semi-documental, com uma câmara à mão muito controlada e selectiva. O resultado está à vista: não só a realização é fantástica, como as interpretações de todos os envolvidos, actores e não-actores, é brilhante.

E, claro, para quem apregoe que o cinema de autor é incapaz de conciliar as palmas da crítica com o agrado do grande  público, "A Turma" é um dos maiores estalos na cara: para além da Palma d'Ouro e dos elogios da imprensa especializada, o filme de Cantet tem feito uma carreira comercial invejável por onde tem passado. Em Portugal, já ultrapassou a barreira dos 15 mil espectadores. E acredito que não fique por aqui...

* Ler, a este propósito, a extensa e excelente entrevista dada por Laurent Cantet aos Cahiers du Cinema no número 637 da mencionada revista.

sexta-feira, outubro 31, 2008

Duas breves sugestões para uma Noite das Bruxas cinéfila


Primeiro, uma das maiores obras-primas de John Carpenter, incontornável neste dia do ano, para ver e rever pela enésima vez e continuar a ficar fascinado pelo modo como resiste ao tempo e permanece uma pura lição de cinema.

Depois, atrevo-me a dizê-lo, um dos melhores remakes do género, assinado por um dos nomes mais estimulantes do cinema de terror norte-americano contemporâneo que, correndo o maior dos riscos, não teve medo de dar a sua visão muito pessoal do original. Não o seguindo à risca, prestou-lhe a melhor das homenagens e, acima de tudo, ganhou essa autonomia que todo o remake deve ter em relação ao original.

Happy trick or treating!


quinta-feira, outubro 30, 2008

Revista da Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos online

Só há uns dias é que descobri que a Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos, desde o início de Outubro, colocou online uma "e-magazine" com diversos artigos redigidos pelos seus sócios.

Neste conjunto de textos dedicados ao sempre intrigante e polémico tema "Ser Guionista em Portugal", há que destacar um perspicaz olhar sobre a situação do cinema português da autoria de Jorge Vaz Nande (com o sugestivo título "Devemos sempre olhar para a Nigéria"); uma divertida (e nem por isso pouco amarga) crónica da profissão escrita por Tiago Santos ("Call Girl"),  e, também, uma muito interessante entrevista a António Ferreira, o cineasta que escreveu e realizou esse delicioso retrato de uma família portuguesa em colapso chamado "Esquece Tudo o Que Te Disse". Há outros textos bem interessantes, mas deixo os links dos artigos citados para aguçar o apetite para o resto.

Num país onde a profissão de argumentista, para além de ser injustamente desvalorizada, parece dar novo sentido à expressão "trabalho intermitente" (a não ser, claro, que se esteja a escrever para telenovelas), é de louvar que a sua maior associação dê provas de dinamismo ao pedir aos seus sócios para reflectirem sobre o estado e a arte do seu ofício. A seguir atentamente.

segunda-feira, outubro 27, 2008

Elogio de "Mal Nascida"


Tenho estado para escrever aqui sobre "Mal Nascida", a mais recente longa-metragem de João Canijo estreada entre nós no início de Outubro num número bastante reduzido de salas e com menos "burburinho" crítico que a sua "prequela", "Noite Escura". Já passou uma semana desde que tive a oportunidade de o ver, mas tem sido difícil ordenar as ideias que o filme suscitou e colocá-las por escrito. Aqui vai uma tentativa...

Antes de começar, porém, devo avisar que este texto não é uma crítica nem uma análise da obra em questão. É, antes, um elogio ao que se fez neste filme: adaptando a história de Electra à nossa realidade contemporânea, Canijo transpôs a acção de uma tragédia grega para um cenário no interior de Portugal (esse país "de brandos costumes" onde "não se passa nada" e, por isso mesmo, todos são poetas...) arrebatando, no processo, uma história de um enorme folgo dramático com uma naturalidade que impressiona.

Ao contrário de outros cineastas portugueses, Canijo não filma as suas personagens "feias, porcas e más" como se estivesse do lado de fora de uma jaula do jardim zoológico a ver uma qualquer atracção exótica. Sabe que, no meio daquela rudeza, daquela má educação, estão seres humanos, pessoas colocadas numa situação extrema e cujas (re)acções têm tanto de revoltante como de triste e, não raras vezes, de comovente. Consequentemente, consegue mostrar que aquelas almas perdidas que habitam aquela aldeia aparentemente tão remota têm muito mais a ver connosco, espectadores sentados confortavelmente nas cadeiras da sala de cinema, do que poderíamos pensar. O fabuloso trabalho dos actores (do qual não apetece destacar ninguém, de tal forma Anabela Moreira, Fernando Luís, Márcia Breia e Gonçalo Waddington estão maravilhosamente à altura uns dos outros), o cuidado notório na caracterização do ambiente tanto a nível visual como sonoro e, claro, uma realização segura, tornam esta obra obrigatória no início deste Outono cinematográfico.

Não é um filme "bonito" - é um filme justo. Só por isso, merece toda a nossa atenção...

Reboot

Nada de justificações, nada de promessas. Refresque-se a máquina e venham os textos que vierem...

sábado, fevereiro 02, 2008

Le Roi est mort... Vive le Roi!

Estreia hoje, às 21h 15m, na RTP1, a série "O Dia do Regicídio", um projecto em que tive o prazer de trabalhar o ano passado enquanto assistente de montagem. Trata-se de uma ficção centrada nos eventos que levaram ao assassinato do rei D.Carlos.

Infelizmente, a versão que, para já, vai para o ar é uma espécie de "compacto" da série, com dois episódios a serem "colados" um ao outro para que a totalidade da série seja exibida nestes próximos três dias em "fatias" de 90 minutos... o que pressupõe vários cortes na montagem final.

Como alguém que participou, ainda que de forma bastante secundária, na feitura desta obra, lamento com um considerável desapontamento que, de momento, tenhamos de ver uma variante "encurtada" da série por razões que me escapam completamente - fica a esperança e o desejo de que, no futuro, a versão integral seja transmitida tal como o realizador, os argumentistas, o director de fotografia, o montador e toda a restante equipa a imaginou.

De qualquer forma, não se demovam de assistir aos episódios, porque a série, na minha modesta (e, claro, não exactamente isenta) opinião, continua a ter um nível e uma qualidade inegável - para aguçar o apetite de quem ler estas linhas, deixo-vos aqui a trailer:



Espero que gostem!

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Talk-Radio! Entrevista ao indivíduo responsável por este blog...

Tive o prazer de ser recentemente entrevistado para a secção Posta@Posta do site Jornalismo Porto Rádio da Universidade do Porto - trata-se de um programa centrado na blogosfera portuguesa e na conversa com as pessoas que se sentam por de trás do computador a debitar textos para o Blogger ou para outro qualquer site de alojamento de blogs!

Da minha parte, posso dizer que a entrevista correu bastante bem (não obstante uma pequena calinada no português, uma expressão dita de forma incorrecta E uma gaffe no nome do realizador Hiroyuki Yamaga - tudo da minha autoria...), o pessoal da JPR foi de um profissionalismo acima de qualquer dúvida e conseguiu escolher bem as frases a reter de entre 45 minutos de conversa ao telefone! No programa: algumas considerações sobre o mundo do cinema (tanto lá fora como em Portugal), algumas histórias dos bastidores deste blog, a experiência de ter trabalhado com o Canto e Castro; e, claro, uma breve promo de "O Dia do Regicídio"!

Portanto, se quiserem ouvir o meu gaguejar e ficar com uma ideia da minha voz, dêem um saltinho ao site do Posta@Posta! Da minha parte, fica aqui o meu agradecimento à equipa de Diana Albuquerque, Marta Maia e Tatiana Carvalho por me terem posto à vontade e pelo interesse demonstrado por este cantinho da blogosfera! ^_^

Entrevista

http://jpr.icicom.up.pt/postaposta/

Site Jornalismo Porto Rádio

Heath Ledger (1979-2008)


Agora que se preparava para conseguir o impossível e fazer-nos esquecer, nem que só momentaneamente, o extraordinário Joker que Jack Nicholson criou para "Batman" de Tim Burton, ficamos com aquela sensação desconfortável de que iremos ver, no seu derradeiro trabalho em "The Dark Knight" de Christopher Nolan, um canto de cisne negro que só nos lembrará que este jovem actor ainda tinha muito para dar - a nós e à 7a arte. Ficamos com essa certeza e com a memória daquele cowboy solitário magistralmente retratado em "Brokeback Mountain" - o que, se pensarmos bem nisso, não é nada pouco para quem só tinha 28 anos...

sábado, dezembro 08, 2007

Pela honra de quem se mata a escrever

Como já deve ser do conhecimento geral, os argumentistas norte-americanos inscritos no Writer's Guild of America (WGA) encontram-se actualmente em greve - o resultado disto é que séries de ficção como "Heroes" e talk-shows como o "The Tonight Show" ou "The Daily Show" estão, actualmente, a passar episódios antigos (e isto tanto nos EUA como em Portugal), num regime de repetições que só terminará quando as negociações com as produtoras e as cadeias de televisão se resolverem.

Mas se a greve tem sido amplamente divulgada nos media, já as razões que levaram à sua existência não têm sido suficientemente esclarecidas. Encontrei este vídeo no blog da Ardelua, e não resisto a colocá-lo aqui, pois explica, de uma forma concisa, completa e muito divertida, o busilis da questão:



Se ficarem sensibilizados, convido-vos a visitarem o blog oficial dos grevistas e a assinarem a petição online de apoio à causa dos argumentistas. O meu nome já lá está...

P.S. - E quando é que, em Portugal, os nossos profissionais do audiovisual se decidem a "bater o pé" com a mesma dignidade que os seus congéneres americanos?

domingo, novembro 18, 2007

O tamanho importa...



Ontem, pouco antes do jogo da Selecção Nacional, o noticiário da RTP apresentou um curioso alinhamento de notícias que, de certa forma, é um primoroso retrato do nosso país: a primeira reportagem falava-nos do encerramento do Cinema Quarteto por falta de condições de segurança; a isto, seguiu-se um mui pomposo bloco que nos mostrava como o país olhou deslumbrado para a inauguração da Maior Árvore de Natal da Europa no Porto.

Um dos cinemas mais emblemáticos de Lisboa, responsável pela exibição de centenas de títulos marcantes que qualquer cinéfilo que o tenha visitado não pode esquecer, ameaça fechar as portas apesar dos esforços dos seus responsáveis para corrigir a situação, mas não há problema: a nossa Árvore de Natal é maior do que as dos outros países do nosso continente! Enfim, prioridades...

domingo, outubro 21, 2007

Dario Argento Ritorna: La Terza Madre (The Third Mother: Mother of Tears)


Estreia dia 31 deste mês na Itália aquele que deve ser um (o?) dos filmes de terror mais aguardados dos últimos tempos - "La Terza Madre" de Dario Argento, o terceiro e último capítulo de uma mítica trilogia iniciada há precisamente 30 anos com o extraordinário "Suspiria" pelo realizador de obras como "Profondo Rosso" ou "Phenomena", trilogia essa interrompida (e só agora retomada) após o fracasso comercial do segundo opus, "Inferno" (1980).

A trailer, que pode ser vista aqui, está na net há já algum tempo e permite aguçar o apetite para o que aí vem. Não parece que estejamos perante os mesmos espectáculos visuais do primeiro filme (embora, diga-se de passagem, a fotografia esteja com óptimo aspecto), mas o argumento parece bastante interessante e é sempre bom saber que a música é composta por Claudio Simonetti (grande colaborador de Argento e antigo membro dos Goblin, banda responsável pela fabulosa música de "Suspiria") e que Asia Argento, a filha do realizador e uma actriz de excepção, é a protagonista.

Dario Argento declarou à revista francesa Mad Movies que este é o filme mais gore que alguma vez rodou e que foi criado no mesmo estilo das suas obras dos anos 70 (que muitos fãs consideram ser o seu período de ouro). As reacções às poucas exibições que o filme teve em festivais têm sido mistas, mas nada que tolde o entusiasmo em torno da obra.

Argento é um dos nomes de referência do cinema fantástico Italiano desde o início dos anos 70. Capaz de fazer algumas das maiores obras dos respectivos géneros ("Suspiria", "Profondo Rosso") como também títulos francamente fracos ("Trauma", "Ti Piace Hitchcock?"), os seus mais recentes trabalhos foram dois episódios para a série "Masters of Horror" - "Jenifer", na primeira temporada, e "Pelts", na segunda. O seu último filme estreado nas salas foi "Il Cartaio - O Jogador Misterioso", que foi editado em Portugal directamente em DVD numa edição unicamente dobrada em inglês. Por cá, a última obra que vimos nos ecrãs grandes portugueses foi "O Fantasma da Ópera" em... 1999.

Alguma esperança de virmos a ter este filme a estrear nas nossas salas? Façamos figas...

sábado, setembro 29, 2007

Um novo Jump Cut!

Vem tarde, mas não podia deixar de fazer a publicidade gratuita ao recentemente reactivado Jump Cut, um blog de cinema assinado por um velho amigo desta casa (o famigerado Excombatente!) que voltou à escrita sobre a 7ª arte neste mês de Setembro. Fica aqui o desejo de uma boa continuação nesta aventura, e também a recomendação de leitura do artigo sobre o fantástico "Nevoeiro" desse mestre que é John Carpenter. A consultar frequentemente, até porque o seu autor escreve com alguma maior regularidade do que eu...

Publicidade Divina


"My Blueberry Nights" de Wong Kar-Wai tarda a estrear em Portugal (estreará sequer?). Mas enquanto vamos aguardando pelo dia em que as nossas salas possam descobrir a primeira aventura em território americano do realizador de "In the Mood for Love", podemos deleitar-nos com esta pequena maravilha de anúncio que WKW dirigiu recentemente para a Dior. E quando a musa* do autor para esta very-short-story é a sublime Eva Green, temos a certeza que o que nos espera é algo de realmente especial! Vejam e admirem - afinal, a publicidade também é (ou pelo menos pode ser) cinema...

* - Por falar em musas, e para que a questão não fique sem resposta, a música de fundo do spot é nem mais nem menos do que "Space Dementia" dos Muse.

terça-feira, setembro 18, 2007

R.I.P. PREMIERE PORTUGUESA:1999 - 2007


Hoje, ao voltar a casa, descobri, com enorme choque, a notícia de que a Premiere, a única revista de cinema actualmente em publicação em Portugal, irá ter o seu derradeiro número já no próximo mês. Podem ler uma emocionada (e bem esclarecedora) nota do director da revista, José Vieira Mendes, no blog da revista. Creio que esse post explica melhor o que se passou para as coisas chegarem a este ponto do que qualquer tentativa de sumarizar o assunto numa ou duas linhas.

Sou leitor da versão portuguesa da Premiere desde o primeiro número. Quando surgiu no mercado, estávamos numa época onde a crítica cinematográfica e os textos sobre cinema estavam limitados a uma secção nos jornais generalistas e a uma ou duas "promo mags" oferecidas nas salas de cinema que pouco mais eram do que uma publicidade alargada disfarçada de "textos sérios". Se não me engano, a última tentativa de fazer uma revista dedicada à 7ª arte com uma grande circulação no país tinha sido a TV Filmes que, tal como as suas antecessoras, não se aguentou por muito tempo. A longevidade e a resistência da Premiere às atribulações do mercado português pareciam, por isso mesmo, sugerir que esta seria uma publicação para se aguentar durante muitos anos e bons. Prestes a concluir nove trezentos-e-sessenta-e-cinco dias de existência, vê agora as suas portas fecharem por "motivos de ordem económica". Ironia das ironias, as vendas até iam bastante bem...

Que fique claro, não creio que a Premiere fosse uma revista perfeita. Não alinho com os comentários disparatados que pintaram a revista como estando "ao serviço dos estúdios americanos", mas o certo é que as entrevistas às celebridades (importadas da Fotogramas espanhola, há que recordá-lo...) por vezes pareciam saídas da Caras, e muitos artigos interessantes pecavam por serem excessivamente curtos, sem desenvolver suficientemente o tema que propunham abordar. Porém, seria de uma tremenda injustiça e grosseria não reconhecer o enorme mérito de toda a equipa da revista em criar, todos os meses, textos e artigos que foram formando a cinefilia nacional - das crónicas de Criswell à cobertura dos festivais, passando pelas análises dos DVDs nacionais e importados, permitiu que críticos jovens como Marco Oliveira, Luís Salvado, Nuno Markl, Rui Pedro Tendinha ou Luís Canau pudessem ver os seus textos publicados. Sem nunca descurar os acontecimentos e as novidades da indústria a nível mundial, deu uma noção do que se fazia cá dentro na área da 7ª arte. Possibilitou, via o DVD que se tornou no "extra" da revista nos últimos anos, o contacto com alguns filmes de grande qualidade a um preço mais acessível. E, sobretudo, difundiu e partilhou a evidente paixão dos seus redactores pelo cinema. A crescente quantidade de respostas ao post de obituário da revista no seu blog oficial só prova que, nestes oito anos, conseguiu criar uma considerável comunidade de leitores fiéis que não pode ser ignorada.

Parece uma maldição que todas as revistas de cinema lançadas em Portugal tenham um fim inglório. Não deixa de ser paradoxal (e muito triste) constatar que aquela que é uma das mais populares artes das civilizações contemporâneas tem mais dificuldade em se impor por terras lusas do que uma revista de jardinagem ou a enésima publicação cor-de-rosa...

quinta-feira, agosto 30, 2007

"We'll be right back after these wise words from our sponsors..."


Por motivos de cariz profissional (isto é: porque vou estar a trabalhar!), o CineArte vai ficar de actividade suspensa até, pelo menos, 5 de Setembro. Entretanto, e para compensar a minha curta ausência, deixo aqui um vídeo hillariantemente genial que descobri há uns tempos no Blog da Premiere e que não resisto a partilhar! Espero que apreciem e que a entrada em Setembro seja proveitosa!

domingo, agosto 12, 2007

AMERICAN DONUTS - SIMPSONS: o Filme



Foram precisos 18 anos para que a família norte-americana mais famosa da televisão fizesse a tão aguardada transição para o grande ecrã. O resultado está aí – uma sátira completamente louca às vicissitudes da família e da sociedade, ancorada num guião deliciosamente construído (assinado por 11 argumentistas, hélas!) com um sentido de humor insano digno dos Monty Python que não se coíbe de criticar tudo e todos (e nem a Disney escapa a umas boas farpas!).

Como o próprio James L. Brooks (produtor da série desde o primeiro dia) já afirmou, não é necessário estar a contar o plot para justificar o acto de comprar o bilhete de admissão – espera-nos uma história de hora e meia com Homer, Bart, Marge, Lisa, Maggie e todo um vasto elenco de personagens secundárias que já conhecemos com a familiaridade de velhos amigos, apresentada com uma animação “à antiga”, desenhada à mão, mas mais trabalhada do que o habitual (atente-se aos detalhes das sombras das personagens e à riqueza da paleta de cores) e com uma sucessão de gags absolutamente alucinante que vão desde a sátira política ao pura e simplesmente absurdo.

Há quem venha criticar que esta incursão cinematográfica não acrescenta nada ao que já vimos nas várias temporadas emitidas na televisão – um dos primeiros gags, aliás, toca precisamente nessa questão criativa com um tom irónico fabuloso – mas quando a série original já é acima da média em tudo (realização, argumento, interpretações vocais, etc.) e constitui um olhar único sobre as parvoíces e qualidades redentoras da nossa sociedade, que razão temos para nos queixarmos? Tal como outras séries que fizeram com êxito a sua passagem para o cinema (penso em South Park, por exemplo) estamos perante uma aventura “bigger, better and uncut” – que mais poderíamos querer?


Para terminar, duas observações não relacionadas com o filme em si: primeiramente, e tendo em conta de que esta é uma obra de animação de humor inteligente dirigida (sobretudo) a um público adulto, há que questionar quem é que teve a ideia brilhante de nos apresentar uma versão dobrada, ainda para mais quando a série sempre foi emitida em Portugal com legendas? Confesso que, como não vi a dobragem portuguesa, posso estar a ser injusto com todos os envolvidos nesta, mas parece-me impossível manter o rigor e a magistralidade das prestações dos actores originais, bem como todos os subentendidos e todas as brincadeiras com a língua inglesa que os diálogos têm no script, numa versão “falada em português”. A legendagem pode nem sempre acertar na sua adaptação para a língua portuguesa, mas quem tiver bom ouvido e conhecimentos razoáveis de inglês, pelo menos, tem a hipótese de não perder nada. Felizmente, saúde-se o facto de termos a alternativa de visionar a versão legendada, se não em todas, pelo menos em várias das salas que, actualmente, exibem a película.

Em segundo: num filme cujo genérico de fim arranca com uma paródia às pessoas que saem da sala assim que este começa, é impressionante assistir-se à “fuga” de uma grande parte dos espectadores da sessão a que assisti – caramba, os criadores estão praticamente a berrar-nos que o genérico vai estar cheio de bons gags para quem ficar até ao (verdadeiro) fim, e mesmo assim cedemos ao impulso infantil de sair IMEDIATAMENTE após a história terminar? É caso para dizer: D’oh!

sábado, agosto 04, 2007

Uma Série de Séries

Fui desafiado pela Sara do Transeunte Inútil de Ti e de Mim (a quem retribuo o desafio com esta resposta e com um beijo...) a fazer uma lista das minhas cinco séries de TV favoritas. Ora, quem me conhece sabe que não gosto particularmente de fazer tops (apesar de um dos últimos artigos da antiga versão deste blog ser, precisamente, um top...) por diversas razões - a maior das quais é o facto de acabarmos sempre por nos esquecer de um ou dois títulos importantes. Depois, há sempre o factor do momento da escrita - qualquer top que faça agora teria outra forma amanhã, ou depois de amanhã, ou na próxima semana, etc, etc. Daí que, como já fiz anteriormente, faça a ressalva de que esta lista é inteiramente subjectiva, temporária e serve, mais do que para dizer "esta é a melhor série de todos os tempos" antes para chamar a atenção para várias obras de ficção que a TV nos deu a conhecer.

Numa altura em que só se fala dos malefícios da televisão, como se se tratasse da fonte de todo o mal do mundo, e como se se limitasse a transmitir telenovelas e reality shows rascas em rápida sucessão, é bom relembrar que a "caixa que mudou o mundo" tem sido, nas últimas décadas, o palco privilegiado para a mostra destas séries e, também, a rampa de lançamento de alguns grandes talentos no campo da ficção - sejam eles actores, realizadores, argumentistas ou quaisquer outros profissionais do audiovisual.

Dito isto, venha(m) o(s) top(s) - sim, porque um só top não faria justiça! Deixo também algumas "menções honrosas", ou seja, séries que podiam estar nas listas noutro dia, mas hoje não estão pura e simplesmente porque não calhou. E não, os tops não estão organizados por ordem de preferência!



SÉRIES "DRAMÁTICAS"

SETE PALMOS DE TERRA (Six Feet Under)




É uma das obras de ficção mais brilhantes dos últimos tempos (e não me estou a limitar à ficção para cinema ou TV!), um prodígio de escrita de argumento, um trabalho de actores brilhante, uma realização sempre impecável - e, acima de tudo, é das séries que mais e melhor nos tem falado das incertezas e dos problemas do nosso tempo. Daqui a 50 anos, presumo que vai ser possível perceber um pouco o que era a nossa sociedade ao ver-se uns quantos episódios de Six Feet Under. E essa, para mim, é a marca das grandes obras de ficção.

TWIN PEAKS

Não fosse TP e provavelmente não teria havido nenhuma das grandes séries norte-americanas dos anos 90 em diante - pela mão de um realizador de cinema (David Lynch), a América (e, depois, o resto do mundo) ficou agarrada ao ecrã pequeno só para saber quem, na cidade superficialmente pacata de Twin Peaks, tinha assassinado uma adolescente exemplar chamada Laura Palmer. Misturando com inegável mestria o bizarro, o macabro, o drama familiar, o plot-por-vezes-telenovelesco e uma dose bem sugestiva de humor negro, TP veio provar que era, afinal, continuava a ser possível fazer obras de qualidade cinematográfica na televisão com uma história que nos mostrava como a paz suburbana não passa de uma ilusão bem desenhada (coisa que "Veludo Azul", do mesmo realizador, também já fizera). Infelizmente, um final abrupto devido a uma queda cruel nas audiências não veio dar o ponto final que se desejava à história, e nem o filme "Fire Walk With Me", injustamente mal-amado na altura, deixou tudo concluído. Quem sabe, um dia...

A QUINTA DIMENSÃO (TWILIGHT ZONE)

A mítica série de Rod Serling tem todas as razões para estar aqui - por ser uma das mais influentes séries dentro do Fantástico (catalogação algo "vaga" que serve para abranger a ficção-científica, o terror, o suspense e o pura e simplesmente bizarro...), pela geração de cineastas que marcou, pela excelência das histórias que se tornaram de antologia, pelo tema musical que dá sempre vontade de assobiar... enfim, por estas e por outras razões, já se justificava uma nova reposição na SIC Radical!

O POLVO (La Piovra)

A Máfia vista pelos italianos numa excelente série que a RAI produziu (e, ocasionalmente, continua a produzir) - apesar do tema de "polícias que combatem a corrupção mafiosa" já parecer muito batido, esta obra foi das que melhor mostrou o dilema dos que não se deixam corromper e a dificuldade de tentar erradicar um Mal que parece enraizado na própria maneira de estar dos Italianos. Incluo aqui todas as séries até ao final da 4ª temporada - onde termina a saga do Comissário Cattani (um brilhante Michele Placido) e a série começa a não acrescentar muito de novo ao que já vimos.

ALIAS - A VINGADORA (Alias)


Antes de "Lost", J.J. Abrams tinha chegado à ribalta com uma série sobre uma espia que sofre mais reviravoltas na sua vida por episódio do que todos o filmes de Shyamalan postos juntos! Apesar de, à primeira vista, parecer "só" mais uma série de acção com muitas explosões, tiros, gadgets incríveis e mulheres deslumbrantes, o modo como a narrativa é construída leva-nos numa busca pela identidade da protagonista que é tão aliciante que não podemos deixar de ver o próximo episódio! Acrescente-se a isto um conjunto de personagens muito bem delineadas (e com actores de estofo para as interpretar), uma direcção de fotografia e uma montagem bem acima da média, cameos de luxo (Quentin Tarantino, Isabella Rosselini, Sónia Braga, etc.) e temos um show que é um prazer de ver!

Menções honrosas: Dr. House, Sopranos, Ficheiros Secretos (até ao filme, que a partir daí é sempre a descer...), A Balada de Hill Street, Masters of Horror, etc, etc.

SITCOMS

SEINFELD


O show sobre nada que acabou por nos falar de quase tudo. Há grande coisa a acrescentar sobre as brilhantes situações cómicas, os diálogos inacreditavelmente bem escritos, um conjunto de actores que nunca esteve tão bem como aqui, etc? Creio que não. Além disso, qualquer série que tenha inventado uma personagem chamada "O Nazi das Sopas" merece destaque só por isso!

QUEM SAI AOS SEUS (Family Ties)

A sitcom é um dos géneros mais mal tratados de sempre - injustamente, porque, tal como as grandes comédias do passado, conseguem fazer-nos rir num momento e chorar no outro, de tão bem construídas que são as personagens. É o caso de Quem Sai aos Seus, a série de Gary David Goldberg que revelou Michael J. Fox e que nos fez acompanhar o crescimento de uma família americana ao longo de vários anos. Há quem cometa o disparate de dizer que é uma série "conservadora" só porque o seu protagonista, Alex, é um republicano convicto. Mas isso é não perceber rigorosamente nada do que é a série...

FRASIER

Dois irmãos psiquiatras com mais disfunções e inseguranças que os seus doentes, um pai que é polícia reformado, um cão com mais personalidade que muitos humanos e uma empregada inglesa sexy são os ingredientes que bastam para criar uma sitcom de um humor muito inteligente que é sempre um prazer de ver! É um caso raro de um spin-off que é muito melhor que a série que a originou (neste caso, "Cheers, aquele Bar").

SIMPSONS

Ao fim de dezoito anos, torna-se difícil seguir todos os episódios com a mesma devoção e atenção com que se seguia os das primeiras temporadas - muito por culpa da constante programação e desprogramação das últimas seasons pela parte da RTP. Mas é inegável que a série continua a ter um excelente nível de escrita, com gags absolutamente geniais a serem disparados à velocidade de uma AK-47. Por isso, e como já são um ícone incontestável da nossa cultura-pop, têm um lugar de ouro neste top.

SOUTH PARK

Sinónimo de "subversivo", South Park é a prova de que não é preciso uma animação super fluída para termos uma série genial - basta termos um argumento que crítica, com um ácido sulfúrico capaz de derreter aço, toda uma sociedade hipócrita sem qualquer vergonha ou pudor. Muito para além do conceito de "putos mal-criados que dizem palavrões" que a tornou célebre, South Park é um grito de insatisfação de dois criadores (Trey Parker e Matt Stone) que têm sido dos mais perspicazes cantores de escárnio da América do Norte.

Menções honrosas: Tudo em Família, The Office, Uma Família às Direitas, Coupling, Blackadder, Allo Allo, Fawlty Towers, etc, etc.

ANIME

COWBOY BEBOP


É das obras mais marcantes que a animação nos deu. Para além do seu visual "cool", da sua animação impecável, da banda-sonora jazz fabulosa de Yoko Kanno, da realização extraordinária de Shinichiro Watanabe (que, só com esta série, ganhou o direito de ser considerado um dos maiores "autores" da sua geração) ou das interpretações brilhantes de todo o elenco, há qualquer coisa de eminentemente melancólica na história de Spike Spiegel e os seus companheiros. Uma das grandes séries dos anos 90 (e não falo só de animação!).

NEON GENESIS EVANGELION (Shin Seiki Evangelion)

A recente transmissão da série na SIC Radical só veio evidenciar que a série resistiu ao teste do tempo - como qualquer clássico, os visuais hoje podem não ser tão impressionantes como eram em 1995, mas a história, a realização e todas as questões que levanta continuam a ser tão perturbadores e brilhantes passados mais de dez anos. Se isso não é sinal da sua qualidade intemporal, então o que é?

RANMA 1/2 / MAISON IKKOKU

É difícil escolher um sem pôr o outro. Ranma é uma delícia de humor completamente insano, com personagens inesquecíveis e um charme inegável, mas Maison Ikkoku, da mesma autora, é uma obra muito mais contida, completamente centrada na realidade, e que nos vai directamente ao coração. Para além disso, e de um sentido de humor sempre fabuloso, é realizada com uma tal atenção ao pormenor que, ao vê-la, temos a plena sensação de estarmos a assistir a um documentário sobre o que é ser-se um jovem adulto no Japão dos anos 80.

TENCHI MUYOU!

Depois de uma série de OVAS (obra feita especialmente para vídeo) de grande êxito, os criadores do universo de Tenchi Muyou decidiram dar as rédeas de realização da versão televisiva a um jovem Hiroshi Negishi que, sem que ninguém esperasse, deu um toque muito pessoal à história e às personagens originais - e acabou por fazer uma série melhor que a original! Uma das obras pilares dos chamados "harem-anime", Tenchi Muyo é uma comédia deliciosa que, porém, é dirigida com enorme sensibilidade, chegando não raras vezes a fazer-nos vir uma lágrima ao olho. Se há série que prove a importância que um realizador tem na sua direcção criativa, é esta.

PARANOIA AGENT

Depois de duas brilhantes incursões na longa-metragem de animação, Satoshi Kon decidiu realizar um anime "para adultos", exibido num canal pago e a horas em que as crianças estivessem todas na cama, que abordasse as neuroses da sociedade japonesa com menos restrições (de orçamento, de censura) que a habitual produção televisiva tem. O resultado foi uma magnífica série de 13 episódios que nos mostra que uma série de TV pode ter a qualidade de argumento e realização de uma longa-metragem!


Menções honrosas: Dragon Ball, Escaflowne, Death Note, X, Lain, Boogiepop Phantom, Full Metal Alchemist, Naruto, Rurouni Kenshin, Wolf's Rain, etc.

Como é suposto "passar" a corrente a cinco pessoas, mas o blog ainda é "novo", deixo o desafio de continuarem o tópico:

À Ardelua
Ao Hugo
Ao Rui
Ao Noise Apático
À TV-Child