domingo, agosto 01, 2004

Museu temporariamente fechado para férias


Chega Agosto e é sempre a mesma coisa na capital. As pessoas que pouparam algum dinheiro fogem para fora (Algarve ou República Dominicana, se o objectivo é praia; Paris ou Nova-Iorque, quando se procura outra coisa...) e quem permanece por Lisboa fica a trabalhar, à procura de emprego ou a dar-se feliz por haver tantos lugares para estacionar o carro. Por outro lado, quem está de férias e procura passar o tempo livre nas salas escuras pode ter certas dificuldades em encontrar boas propostas uma vez vistos os "essenciais" (afinal, estamos na silly-season!). Em qualquer outra altura do ano, uma boa alternativa a um cartaz menos apelativo seria sempre a Cinemateca. Digo "em qualquer outra altura do ano" porque, como pode constatar quem visitar o site oficial do Museu do Cinema, as suas portas estão fechadas neste mês de Agosto!

A Cinemateca Portuguesa é uma das melhores instituições nacionais dedicadas à promoção da Sétima Arte em Portugal. Que disso não haja dúvidas. A sua rica programação, baseada num crescente arquivo que, se em 1989, contava com cerca de 800 longas metragens nacionais e estrangeiras (de acordo com João Bénard da Costa no seu livro "Os Filmes da Minha Vida - Os Meus Filmes da Vida), hoje tem um espólio bem mais considerável, tem feito as delícias de quem a tenha visitado nos restantes onze meses dos últimos anos. O preço acessível dos seus bilhetes; a bem apetrechada livraria da Ler Devagar (a única que parece verdadeiramente fazer juz à categoria de "Livraria de Cinema" em Portugal); o simpático café-restaurante, com a sua esplanada a servir as honras de projecções ao ar-livre nos meses de calor; as exposições periódicas; a biblioteca; a sala de projecções de DVDs... tudo isto são qualidades que quem já entrou no edifício situado na Rua Barata Salgueiro certamente não negará. Isto, claro, se o tiver visitado sem ser em Agosto!

Poderão dizer-me que Agosto é mês de férias e que os empregados da Cinemateca, como seres humanos que são, merecem um período de descanso como qualquer outra pessoa. Concordo absolutamente. Todos, dos projeccionistas à simpática senhora da bilheteira, passando pelos empregados do café e da livraria, merecem um mês de repouso.

O que não compreendo é porque é que a Cinemateca não contrata, nem que unicamente a título temporário, alguém que mantenha o funcionamento das instalações durante mais 31 dias (que nem chegam a isso, porque a Cinemateca ao domingo não tem projecções...). O país está com uma considerável quantidade de desempregados que, certamente de bom grado, fariam um bom trabalho por um ordenado mínimo; e mesmo que não estivesse, há sempre jovens (e não-tão-jovens...) que precisam de empregos em part-time no Verão. Muitos deles preenchem as qualificações mínimas necessárias para o funcionamento da Cinemateca e do seu equipamento (a programação poderia facilmente ser feita à priori pelas "autoridades competentes"). Porque não dar-lhes a oportunidade?

Pode parecer piquinhice insistir nesta questão. Mas o facto é que, para muita gente, a única altura do ano em que podem realmente visitar a Cinemateca é em Agosto. Falo daqueles que vivem fora de Lisboa ou que, vivendo na capital ou perto dela, passam o resto do ano minados por empregos ou cursos sufocantes que deixam pouco tempo para uma passagem pelo Museu do Cinema. Pensemos, aliás, neste último título. A Cinemateca, muito justamente, tem como nome alternativo "Museu do Cinema". E é-o. A preservação/conservação que tem feito de milhares de títulos nacionais e estrangeiros é um feito digno de todos os elogios e, verdadeiramente, uma actividade típica de qualquer bom museu. Mas não basta conservar os filmes - há que exibi-los, dá-los a ver tanto a "connaisseurs" como a "menos iluminados" que talvez apanhem o bichinho do cinema ao ver um ciclo de Billy Wilder ou de Ingmar Bergman. Nos outros meses, é isso que acontece. Quem quiser vê-los em Agosto descobrirá que não pode. O Museu está fechado para férias.

Conseguem imaginar que quem quisesse ver "As Tentações de Santo Antão" de Bosch no Museu Nacional de Arte Antiga durante o mês de Agosto chegasse às portas desta instituição e tivesse que se contentar por comprar um livro da Taschen para contemplar a obra-prima do pintor holandês? Pode parecer exagero, mas acho que esta "ficção" é em tudo comparável com o encerrar da Cinemateca em Agosto. Facto tanto mais chato quando se passa pelos sites da cinematecas de Paris ou de São Paulo e se vê a programação que têm agendada para este mês. Bem sei que são países com realidades económicas e sociais bem diferentes de Portugal. Acredito mesmo que seja o factor € o maior responsável pela não-actividade da Cinemateca am Agosto e não qualquer "má vontade" dos seus directores... mas custava «mesmo» assim tanto mantê-la a funcionar só mais um pouco?

Enfim, vemo-nos por lá em Setembro...

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