sábado, setembro 29, 2007

Um novo Jump Cut!

Vem tarde, mas não podia deixar de fazer a publicidade gratuita ao recentemente reactivado Jump Cut, um blog de cinema assinado por um velho amigo desta casa (o famigerado Excombatente!) que voltou à escrita sobre a 7ª arte neste mês de Setembro. Fica aqui o desejo de uma boa continuação nesta aventura, e também a recomendação de leitura do artigo sobre o fantástico "Nevoeiro" desse mestre que é John Carpenter. A consultar frequentemente, até porque o seu autor escreve com alguma maior regularidade do que eu...

Publicidade Divina


"My Blueberry Nights" de Wong Kar-Wai tarda a estrear em Portugal (estreará sequer?). Mas enquanto vamos aguardando pelo dia em que as nossas salas possam descobrir a primeira aventura em território americano do realizador de "In the Mood for Love", podemos deleitar-nos com esta pequena maravilha de anúncio que WKW dirigiu recentemente para a Dior. E quando a musa* do autor para esta very-short-story é a sublime Eva Green, temos a certeza que o que nos espera é algo de realmente especial! Vejam e admirem - afinal, a publicidade também é (ou pelo menos pode ser) cinema...

* - Por falar em musas, e para que a questão não fique sem resposta, a música de fundo do spot é nem mais nem menos do que "Space Dementia" dos Muse.

terça-feira, setembro 18, 2007

R.I.P. PREMIERE PORTUGUESA:1999 - 2007


Hoje, ao voltar a casa, descobri, com enorme choque, a notícia de que a Premiere, a única revista de cinema actualmente em publicação em Portugal, irá ter o seu derradeiro número já no próximo mês. Podem ler uma emocionada (e bem esclarecedora) nota do director da revista, José Vieira Mendes, no blog da revista. Creio que esse post explica melhor o que se passou para as coisas chegarem a este ponto do que qualquer tentativa de sumarizar o assunto numa ou duas linhas.

Sou leitor da versão portuguesa da Premiere desde o primeiro número. Quando surgiu no mercado, estávamos numa época onde a crítica cinematográfica e os textos sobre cinema estavam limitados a uma secção nos jornais generalistas e a uma ou duas "promo mags" oferecidas nas salas de cinema que pouco mais eram do que uma publicidade alargada disfarçada de "textos sérios". Se não me engano, a última tentativa de fazer uma revista dedicada à 7ª arte com uma grande circulação no país tinha sido a TV Filmes que, tal como as suas antecessoras, não se aguentou por muito tempo. A longevidade e a resistência da Premiere às atribulações do mercado português pareciam, por isso mesmo, sugerir que esta seria uma publicação para se aguentar durante muitos anos e bons. Prestes a concluir nove trezentos-e-sessenta-e-cinco dias de existência, vê agora as suas portas fecharem por "motivos de ordem económica". Ironia das ironias, as vendas até iam bastante bem...

Que fique claro, não creio que a Premiere fosse uma revista perfeita. Não alinho com os comentários disparatados que pintaram a revista como estando "ao serviço dos estúdios americanos", mas o certo é que as entrevistas às celebridades (importadas da Fotogramas espanhola, há que recordá-lo...) por vezes pareciam saídas da Caras, e muitos artigos interessantes pecavam por serem excessivamente curtos, sem desenvolver suficientemente o tema que propunham abordar. Porém, seria de uma tremenda injustiça e grosseria não reconhecer o enorme mérito de toda a equipa da revista em criar, todos os meses, textos e artigos que foram formando a cinefilia nacional - das crónicas de Criswell à cobertura dos festivais, passando pelas análises dos DVDs nacionais e importados, permitiu que críticos jovens como Marco Oliveira, Luís Salvado, Nuno Markl, Rui Pedro Tendinha ou Luís Canau pudessem ver os seus textos publicados. Sem nunca descurar os acontecimentos e as novidades da indústria a nível mundial, deu uma noção do que se fazia cá dentro na área da 7ª arte. Possibilitou, via o DVD que se tornou no "extra" da revista nos últimos anos, o contacto com alguns filmes de grande qualidade a um preço mais acessível. E, sobretudo, difundiu e partilhou a evidente paixão dos seus redactores pelo cinema. A crescente quantidade de respostas ao post de obituário da revista no seu blog oficial só prova que, nestes oito anos, conseguiu criar uma considerável comunidade de leitores fiéis que não pode ser ignorada.

Parece uma maldição que todas as revistas de cinema lançadas em Portugal tenham um fim inglório. Não deixa de ser paradoxal (e muito triste) constatar que aquela que é uma das mais populares artes das civilizações contemporâneas tem mais dificuldade em se impor por terras lusas do que uma revista de jardinagem ou a enésima publicação cor-de-rosa...

quinta-feira, agosto 30, 2007

"We'll be right back after these wise words from our sponsors..."


Por motivos de cariz profissional (isto é: porque vou estar a trabalhar!), o CineArte vai ficar de actividade suspensa até, pelo menos, 5 de Setembro. Entretanto, e para compensar a minha curta ausência, deixo aqui um vídeo hillariantemente genial que descobri há uns tempos no Blog da Premiere e que não resisto a partilhar! Espero que apreciem e que a entrada em Setembro seja proveitosa!

domingo, agosto 12, 2007

AMERICAN DONUTS - SIMPSONS: o Filme



Foram precisos 18 anos para que a família norte-americana mais famosa da televisão fizesse a tão aguardada transição para o grande ecrã. O resultado está aí – uma sátira completamente louca às vicissitudes da família e da sociedade, ancorada num guião deliciosamente construído (assinado por 11 argumentistas, hélas!) com um sentido de humor insano digno dos Monty Python que não se coíbe de criticar tudo e todos (e nem a Disney escapa a umas boas farpas!).

Como o próprio James L. Brooks (produtor da série desde o primeiro dia) já afirmou, não é necessário estar a contar o plot para justificar o acto de comprar o bilhete de admissão – espera-nos uma história de hora e meia com Homer, Bart, Marge, Lisa, Maggie e todo um vasto elenco de personagens secundárias que já conhecemos com a familiaridade de velhos amigos, apresentada com uma animação “à antiga”, desenhada à mão, mas mais trabalhada do que o habitual (atente-se aos detalhes das sombras das personagens e à riqueza da paleta de cores) e com uma sucessão de gags absolutamente alucinante que vão desde a sátira política ao pura e simplesmente absurdo.

Há quem venha criticar que esta incursão cinematográfica não acrescenta nada ao que já vimos nas várias temporadas emitidas na televisão – um dos primeiros gags, aliás, toca precisamente nessa questão criativa com um tom irónico fabuloso – mas quando a série original já é acima da média em tudo (realização, argumento, interpretações vocais, etc.) e constitui um olhar único sobre as parvoíces e qualidades redentoras da nossa sociedade, que razão temos para nos queixarmos? Tal como outras séries que fizeram com êxito a sua passagem para o cinema (penso em South Park, por exemplo) estamos perante uma aventura “bigger, better and uncut” – que mais poderíamos querer?


Para terminar, duas observações não relacionadas com o filme em si: primeiramente, e tendo em conta de que esta é uma obra de animação de humor inteligente dirigida (sobretudo) a um público adulto, há que questionar quem é que teve a ideia brilhante de nos apresentar uma versão dobrada, ainda para mais quando a série sempre foi emitida em Portugal com legendas? Confesso que, como não vi a dobragem portuguesa, posso estar a ser injusto com todos os envolvidos nesta, mas parece-me impossível manter o rigor e a magistralidade das prestações dos actores originais, bem como todos os subentendidos e todas as brincadeiras com a língua inglesa que os diálogos têm no script, numa versão “falada em português”. A legendagem pode nem sempre acertar na sua adaptação para a língua portuguesa, mas quem tiver bom ouvido e conhecimentos razoáveis de inglês, pelo menos, tem a hipótese de não perder nada. Felizmente, saúde-se o facto de termos a alternativa de visionar a versão legendada, se não em todas, pelo menos em várias das salas que, actualmente, exibem a película.

Em segundo: num filme cujo genérico de fim arranca com uma paródia às pessoas que saem da sala assim que este começa, é impressionante assistir-se à “fuga” de uma grande parte dos espectadores da sessão a que assisti – caramba, os criadores estão praticamente a berrar-nos que o genérico vai estar cheio de bons gags para quem ficar até ao (verdadeiro) fim, e mesmo assim cedemos ao impulso infantil de sair IMEDIATAMENTE após a história terminar? É caso para dizer: D’oh!

sábado, agosto 04, 2007

Uma Série de Séries

Fui desafiado pela Sara do Transeunte Inútil de Ti e de Mim (a quem retribuo o desafio com esta resposta e com um beijo...) a fazer uma lista das minhas cinco séries de TV favoritas. Ora, quem me conhece sabe que não gosto particularmente de fazer tops (apesar de um dos últimos artigos da antiga versão deste blog ser, precisamente, um top...) por diversas razões - a maior das quais é o facto de acabarmos sempre por nos esquecer de um ou dois títulos importantes. Depois, há sempre o factor do momento da escrita - qualquer top que faça agora teria outra forma amanhã, ou depois de amanhã, ou na próxima semana, etc, etc. Daí que, como já fiz anteriormente, faça a ressalva de que esta lista é inteiramente subjectiva, temporária e serve, mais do que para dizer "esta é a melhor série de todos os tempos" antes para chamar a atenção para várias obras de ficção que a TV nos deu a conhecer.

Numa altura em que só se fala dos malefícios da televisão, como se se tratasse da fonte de todo o mal do mundo, e como se se limitasse a transmitir telenovelas e reality shows rascas em rápida sucessão, é bom relembrar que a "caixa que mudou o mundo" tem sido, nas últimas décadas, o palco privilegiado para a mostra destas séries e, também, a rampa de lançamento de alguns grandes talentos no campo da ficção - sejam eles actores, realizadores, argumentistas ou quaisquer outros profissionais do audiovisual.

Dito isto, venha(m) o(s) top(s) - sim, porque um só top não faria justiça! Deixo também algumas "menções honrosas", ou seja, séries que podiam estar nas listas noutro dia, mas hoje não estão pura e simplesmente porque não calhou. E não, os tops não estão organizados por ordem de preferência!



SÉRIES "DRAMÁTICAS"

SETE PALMOS DE TERRA (Six Feet Under)




É uma das obras de ficção mais brilhantes dos últimos tempos (e não me estou a limitar à ficção para cinema ou TV!), um prodígio de escrita de argumento, um trabalho de actores brilhante, uma realização sempre impecável - e, acima de tudo, é das séries que mais e melhor nos tem falado das incertezas e dos problemas do nosso tempo. Daqui a 50 anos, presumo que vai ser possível perceber um pouco o que era a nossa sociedade ao ver-se uns quantos episódios de Six Feet Under. E essa, para mim, é a marca das grandes obras de ficção.

TWIN PEAKS

Não fosse TP e provavelmente não teria havido nenhuma das grandes séries norte-americanas dos anos 90 em diante - pela mão de um realizador de cinema (David Lynch), a América (e, depois, o resto do mundo) ficou agarrada ao ecrã pequeno só para saber quem, na cidade superficialmente pacata de Twin Peaks, tinha assassinado uma adolescente exemplar chamada Laura Palmer. Misturando com inegável mestria o bizarro, o macabro, o drama familiar, o plot-por-vezes-telenovelesco e uma dose bem sugestiva de humor negro, TP veio provar que era, afinal, continuava a ser possível fazer obras de qualidade cinematográfica na televisão com uma história que nos mostrava como a paz suburbana não passa de uma ilusão bem desenhada (coisa que "Veludo Azul", do mesmo realizador, também já fizera). Infelizmente, um final abrupto devido a uma queda cruel nas audiências não veio dar o ponto final que se desejava à história, e nem o filme "Fire Walk With Me", injustamente mal-amado na altura, deixou tudo concluído. Quem sabe, um dia...

A QUINTA DIMENSÃO (TWILIGHT ZONE)

A mítica série de Rod Serling tem todas as razões para estar aqui - por ser uma das mais influentes séries dentro do Fantástico (catalogação algo "vaga" que serve para abranger a ficção-científica, o terror, o suspense e o pura e simplesmente bizarro...), pela geração de cineastas que marcou, pela excelência das histórias que se tornaram de antologia, pelo tema musical que dá sempre vontade de assobiar... enfim, por estas e por outras razões, já se justificava uma nova reposição na SIC Radical!

O POLVO (La Piovra)

A Máfia vista pelos italianos numa excelente série que a RAI produziu (e, ocasionalmente, continua a produzir) - apesar do tema de "polícias que combatem a corrupção mafiosa" já parecer muito batido, esta obra foi das que melhor mostrou o dilema dos que não se deixam corromper e a dificuldade de tentar erradicar um Mal que parece enraizado na própria maneira de estar dos Italianos. Incluo aqui todas as séries até ao final da 4ª temporada - onde termina a saga do Comissário Cattani (um brilhante Michele Placido) e a série começa a não acrescentar muito de novo ao que já vimos.

ALIAS - A VINGADORA (Alias)


Antes de "Lost", J.J. Abrams tinha chegado à ribalta com uma série sobre uma espia que sofre mais reviravoltas na sua vida por episódio do que todos o filmes de Shyamalan postos juntos! Apesar de, à primeira vista, parecer "só" mais uma série de acção com muitas explosões, tiros, gadgets incríveis e mulheres deslumbrantes, o modo como a narrativa é construída leva-nos numa busca pela identidade da protagonista que é tão aliciante que não podemos deixar de ver o próximo episódio! Acrescente-se a isto um conjunto de personagens muito bem delineadas (e com actores de estofo para as interpretar), uma direcção de fotografia e uma montagem bem acima da média, cameos de luxo (Quentin Tarantino, Isabella Rosselini, Sónia Braga, etc.) e temos um show que é um prazer de ver!

Menções honrosas: Dr. House, Sopranos, Ficheiros Secretos (até ao filme, que a partir daí é sempre a descer...), A Balada de Hill Street, Masters of Horror, etc, etc.

SITCOMS

SEINFELD


O show sobre nada que acabou por nos falar de quase tudo. Há grande coisa a acrescentar sobre as brilhantes situações cómicas, os diálogos inacreditavelmente bem escritos, um conjunto de actores que nunca esteve tão bem como aqui, etc? Creio que não. Além disso, qualquer série que tenha inventado uma personagem chamada "O Nazi das Sopas" merece destaque só por isso!

QUEM SAI AOS SEUS (Family Ties)

A sitcom é um dos géneros mais mal tratados de sempre - injustamente, porque, tal como as grandes comédias do passado, conseguem fazer-nos rir num momento e chorar no outro, de tão bem construídas que são as personagens. É o caso de Quem Sai aos Seus, a série de Gary David Goldberg que revelou Michael J. Fox e que nos fez acompanhar o crescimento de uma família americana ao longo de vários anos. Há quem cometa o disparate de dizer que é uma série "conservadora" só porque o seu protagonista, Alex, é um republicano convicto. Mas isso é não perceber rigorosamente nada do que é a série...

FRASIER

Dois irmãos psiquiatras com mais disfunções e inseguranças que os seus doentes, um pai que é polícia reformado, um cão com mais personalidade que muitos humanos e uma empregada inglesa sexy são os ingredientes que bastam para criar uma sitcom de um humor muito inteligente que é sempre um prazer de ver! É um caso raro de um spin-off que é muito melhor que a série que a originou (neste caso, "Cheers, aquele Bar").

SIMPSONS

Ao fim de dezoito anos, torna-se difícil seguir todos os episódios com a mesma devoção e atenção com que se seguia os das primeiras temporadas - muito por culpa da constante programação e desprogramação das últimas seasons pela parte da RTP. Mas é inegável que a série continua a ter um excelente nível de escrita, com gags absolutamente geniais a serem disparados à velocidade de uma AK-47. Por isso, e como já são um ícone incontestável da nossa cultura-pop, têm um lugar de ouro neste top.

SOUTH PARK

Sinónimo de "subversivo", South Park é a prova de que não é preciso uma animação super fluída para termos uma série genial - basta termos um argumento que crítica, com um ácido sulfúrico capaz de derreter aço, toda uma sociedade hipócrita sem qualquer vergonha ou pudor. Muito para além do conceito de "putos mal-criados que dizem palavrões" que a tornou célebre, South Park é um grito de insatisfação de dois criadores (Trey Parker e Matt Stone) que têm sido dos mais perspicazes cantores de escárnio da América do Norte.

Menções honrosas: Tudo em Família, The Office, Uma Família às Direitas, Coupling, Blackadder, Allo Allo, Fawlty Towers, etc, etc.

ANIME

COWBOY BEBOP


É das obras mais marcantes que a animação nos deu. Para além do seu visual "cool", da sua animação impecável, da banda-sonora jazz fabulosa de Yoko Kanno, da realização extraordinária de Shinichiro Watanabe (que, só com esta série, ganhou o direito de ser considerado um dos maiores "autores" da sua geração) ou das interpretações brilhantes de todo o elenco, há qualquer coisa de eminentemente melancólica na história de Spike Spiegel e os seus companheiros. Uma das grandes séries dos anos 90 (e não falo só de animação!).

NEON GENESIS EVANGELION (Shin Seiki Evangelion)

A recente transmissão da série na SIC Radical só veio evidenciar que a série resistiu ao teste do tempo - como qualquer clássico, os visuais hoje podem não ser tão impressionantes como eram em 1995, mas a história, a realização e todas as questões que levanta continuam a ser tão perturbadores e brilhantes passados mais de dez anos. Se isso não é sinal da sua qualidade intemporal, então o que é?

RANMA 1/2 / MAISON IKKOKU

É difícil escolher um sem pôr o outro. Ranma é uma delícia de humor completamente insano, com personagens inesquecíveis e um charme inegável, mas Maison Ikkoku, da mesma autora, é uma obra muito mais contida, completamente centrada na realidade, e que nos vai directamente ao coração. Para além disso, e de um sentido de humor sempre fabuloso, é realizada com uma tal atenção ao pormenor que, ao vê-la, temos a plena sensação de estarmos a assistir a um documentário sobre o que é ser-se um jovem adulto no Japão dos anos 80.

TENCHI MUYOU!

Depois de uma série de OVAS (obra feita especialmente para vídeo) de grande êxito, os criadores do universo de Tenchi Muyou decidiram dar as rédeas de realização da versão televisiva a um jovem Hiroshi Negishi que, sem que ninguém esperasse, deu um toque muito pessoal à história e às personagens originais - e acabou por fazer uma série melhor que a original! Uma das obras pilares dos chamados "harem-anime", Tenchi Muyo é uma comédia deliciosa que, porém, é dirigida com enorme sensibilidade, chegando não raras vezes a fazer-nos vir uma lágrima ao olho. Se há série que prove a importância que um realizador tem na sua direcção criativa, é esta.

PARANOIA AGENT

Depois de duas brilhantes incursões na longa-metragem de animação, Satoshi Kon decidiu realizar um anime "para adultos", exibido num canal pago e a horas em que as crianças estivessem todas na cama, que abordasse as neuroses da sociedade japonesa com menos restrições (de orçamento, de censura) que a habitual produção televisiva tem. O resultado foi uma magnífica série de 13 episódios que nos mostra que uma série de TV pode ter a qualidade de argumento e realização de uma longa-metragem!


Menções honrosas: Dragon Ball, Escaflowne, Death Note, X, Lain, Boogiepop Phantom, Full Metal Alchemist, Naruto, Rurouni Kenshin, Wolf's Rain, etc.

Como é suposto "passar" a corrente a cinco pessoas, mas o blog ainda é "novo", deixo o desafio de continuarem o tópico:

À Ardelua
Ao Hugo
Ao Rui
Ao Noise Apático
À TV-Child



quarta-feira, agosto 01, 2007

MICHELANGELO ANTONIONI: 1912 - 2007


Parece mentira que, num espaço de um dia, dois dos maiores cineastas tenham desaparecido. Depois de Ingmar Bergman, perde-se o Mestre italiano Michelangelo Antonioni. Que dizer do autor que nos fez viver "A Aventura" do cinema de uma maneira completamente diferente daquela a que estávamos habituados? Ou do homem que nos fez crer que não estávamos a ver bem as coisas (e a sociedade) nesse enigmático "Blow-Up - A História de um Fotógrafo"? Pouco posso acrescentar aos inúmeros elogios que já lhe foram feitos. A filmografia de Antonioni fala por si - e os filmes falam ainda melhor.

A sua última obra de ficção foi o segmento, "Il filo pericoloso delle cose - O Fio Perigoso das Coisas", escrito por si e pelo seu habitual argumentista, parceiro criativo e amigo Tonino Guerra, para o filme "Eros", ao lado de duas outras short-stories sobre o erotismo assinadas por Steven Soderbergh e Wong Kar-Wai. Esta derradeira curta-metragem, bem como, obviamente, a longa de que faz parte, está escandalosamente inédita em Portugal (mesmo no mercado de DVD), e se alguma vez houve uma ocasião para corrigir essa aberrante falha, agora é a altura...

Como a poesia pode sempre ajudar a exprimir melhor a complexidade da alma humana, deixo aqui a letra que Caetano Veloso escreveu para a canção "Michelangelo Antonioni", o tema musical de "Eros", em homenagem ao realizador:

Visione del silenzio

Angolo vuoto

Pagina senza parole

Una lettera scritta sopra un visio

Di pietra e vapore

Amore

Inutile finestra

Biografia na Wikipedia

Ficha no IMDB

Artigo no site "Senses of Cinema"

segunda-feira, julho 30, 2007

INGMAR BERGMAN: 1918 - 2007


Bastavam "O Sétimo Selo" e "Morangos Silvestres" para que Ingmar Bergman tivesse ficado na história do cinema como um dos seus grandes Mestres intemporais. Mas títulos como "Persona", "Em Busca da Verdade", "Mónica e o Desejo", "A Fonte da Virgem" e tantos, tantos outros constituem um legado artístico que muito dificilmente alguém conseguirá igualar. Isto sem mencionar as peças de teatro que escreveu e as que levou ao palco - estas últimas, infelizmente, destinadas a ficarem na memória unicamente das pessoas a que a elas puderam assistir.

Quanto às suas obras na 7ª arte, essas, felizmente, permanecerão imortais desde que haja suportes para as reproduzir e pessoas para as ver. Saliente-se, também, o seu considerável trabalho na televisão, quer com a marcante série "Cenas da Vida Conjugal" como com a sua derradeira obra "Saraband" - um telefilme rodado em vídeo de alta-definição que tivemos a hipótese de ver em Portugal em todo o seu esplendor. É um belíssimo e perturbador canto de cisne que urge rever para se perceber melhor por que razão cineastas como Woody Allen tanto o admiravam.

Notícia da morte de Ingmar Bergman no IMBD
Biografia na Wikipedia
Ficha no IMDB
Artigo no site "Senses of Cinema"



quinta-feira, julho 26, 2007

Scorsese e o Silêncio


Sabe-se que Martin Scorsese, ainda antes de ter recebido o há muito merecido Oscar para melhor realizador, estava a preparar a adaptação do romance "Silêncio", do escritor japonês Shusaku Endo, em colaboração com o argumentista Jay Cocks ("A Idade da Inocência", "Gangs de Nova-Iorque"). O livro conta-nos a história de um grupo de missionários portugueses que, no século XVII, rumam ao Japão em busca do seu mestre, o padre Cristóvão Ferreira, líder da Companhia de Jesus no Japão que terá renegado a sua fé num momento em que o cristianismo estava a ser erradicado das terras nipónicas.

Depois da cerimónia de entrega das célebres estatuetas, porém, tornou-se menos claro se esta adaptação seria o seu próximo projecto após o fabuloso "The Departed", já que o realizador, entretanto, rodou um documentário sobre os Rolling Stones ("Shining Light") e surgiram rumores sobre um eventual reencontro com Robert De Niro numa longa-metragem chamada "Frankie Machine" a ser filmada, supostamente, já este Verão...

Ora, "Silêncio" é um projecto a aguardar com alguma ansiedade, já que para além de abordar um dos temas preferidos do seu realizador (a fé e as dúvidas daí resultantes), para os espectadores portugueses, terá o interesse suplementar de falar-nos de um momento da nossa história muito pouco analisado por estes lados.

Não se sabe ainda muita informação relativa ao casting para além dos habituais rumores que povoam a net. Mas enquanto não sabemos mais novidades sobre a adaptação cinematográfica, fica aqui um artigo que escrevi sobre o livro de Endo para o blog "Bungaku! - Clube de Literatura Japonesa". Vale bem a pena ver os restantes artigos do site e, já agora, o blog pessoal da coordenadora Sara F. Costa - Transeuente Inútil de ti e de Mim.

segunda-feira, julho 23, 2007

À Prova de Morte - A Apologia do Chunga



Muita tinta tem corrido nos últimos tempos acerca do novo filme de Quentin Taratino. No programa original, “À Prova de Morte” é a segunda parte de um projecto do realizador de Pulp Fiction em colaboração com o seu amigo Robert Rodriguez (“El Mariachi”, “Sin City – A Cidade do Pecado”) que pretende reviver as velhas sessões de “Grindhouse” – ou seja, de uma dupla-sessão de filmes de série B/Z MUITO maus, feitos de encomenda para essas sessões, com valores de produção ridículos, uma inépcia técnica por vezes desconcertante, argumentos onde a coerência nunca foi um factor relevante, uma exploração de violência e sexo absolutamente gratuita, etc. Por outras palavras, de um cinema assumida e orgulhosamente chunga, de um cinema que dá prazer ver pelo mau que é e cujas projecções deixaram, na memória dos cinéfilos que a elas puderam assistir antes da sua extinção durante a década de 80, uma imensa nostalgia por momentos em que o público vibrava com o que via no grande ecrã ao ponto de gritar em voz alta com os personagens!

É simultaneamente o universo estético deste cinema-chunga e o espírito das sessões descritas atrás que o filme “Grindhouse” pretende recriar. Mas se os espectadores europeus vão poder desfrutar do factor de homenagem, já o segundo dos objectivos está algo comprometido graças ao facto das duas partes terem sido divididas em “longas-metragens independentes” com datas de estreia distintas e “novas” cenas que o público americano não pôde ver devido a constrangimentos de tempo a que o sistema de exibição obriga. Se o fracasso nas bilheteiras norte-americanas da versão “dois-em-um” teve ou não a ver com a decisão de lançar as obras separadamente em solo europeu é uma incógnita pouco relevante – mais vale apreciar o filme tal-e-qual nos surge agora e esperar que a edição em DVD nos permita ver a dupla-sessão tal como ela foi projectada nos ecrãs americanos.

E, sejamos directos, há mesmo muito para apreciar naquilo que podemos ver neste “À Prova de Morte”. Quem espera ir ver uma reflexão profunda sobre a condição humana pode muito bem deixar-se ficar pelo átrio do cinema – a homenagem à leveza dos originais Grindhouse é plenamente conseguida neste Slasher que, nas palavras do realizador, substitui a faca do assassino por um carro “à prova de morte”, com a imagem da película intencionalmente degradada (a cópia está cheia de riscos, cortes abruptos dentro do mesmo plano, o som falha aqui e ali...), um raccord entre planos que é pura mentira e um fan-service abundante das várias personagens femininas (embora sem chegar aos níveis dos exploitation originais), indo beber, pelo caminho, inspiração ao universo cinéfilo do autor, com referências a gente do cinema tão diferente como Roger Corman, Russ Meyer, Alfred Hitchock, Brian de Palma, Ennio Morricone, Bernard Herrmann...



O arranque da história tem a simplicidade do Capuchinho Vermelho: um grupo de raparigas sexualmente activas vai de carro passar uns dias a uma casa de férias e, no caminho, deparam-se com um louco que só as quer matar. A estrutura básica de um Slasher, portanto. Contudo, e apesar de toda a aparente superficialidade do projecto, quem procurar com cuidado poderá encontrar uma reflexão algo amarga sobre o estado do cinema popular actual. Isto está patente, por um lado, na faceta desiludida e amarga do perverso Stuntman Mike (Kurt Russel, absolutamente brilhante e finalmente de volta aos papéis de badass que John Carpenter sempre foi exímio em lhe escrever), um duplo da velha guarda que os gráficos de computador (CGI) tornaram dispensável, um “homem do passado” e de um universo ficcional de que a grande parte da juventude nunca ouviu falar e pouco interesse tem em conhecer. O gosto pelo artesanal existe tanto no assassino como no próprio realizador, e a confirmá-lo existe o facto de todas as cenas violentas terem sido encenadas com duplos e sem o auxílio de CGI.

É, no fundo, a tentativa de recuperação de um cinema eminentemente popular que não se armava em “entretenimento de luxo para toda a família”, não deixando de ser, paradoxalmente, talvez o filme mais experimental do realizador, aquele em que o autor mais se deixa seduzir pela manipulação das formas, dos planos (é o próprio Tarantino, aliás, que assina a direcção de fotografia e a operação de câmara), dos sons, da direcção de actores e, também, da escrita do argumento. Se a habitual mestria nos diálogos já se tornou uma espécie de dado-adquirido nos filmes de Tarantino, o que impressiona aqui é o modo como o autor brinca com as convenções da estrutura clássica de três actos, enchendo a narrativa de “momentos mortos” que só nos deixam conhecer melhor as personagens mas em nada fazem avançar a narrativa – um dos crimes capitais da dramaturgia clássica. E o estranho é que funciona! A prová-lo, veja-se a intensidade da passagem da primeira parte do filme para a segunda, numa homenagem escancarada às lições de escrita de argumento de “Psico”, e a eficácia do efeito de catarse da perseguição final, das mais emocionantes dos últimos anos, fazendo-nos lembrar as orquestradas por William Friedkin nos seus filmes de acção.



Esse prazer, o da experimentação, passa para o espectador com um encantador rejúbilo que raramente se vê nos dias de hoje. Mais genuinamente divertido do que qualquer blockbuster actual, “À Prova de Morte” é o verdadeiro filme de Verão e, há que dizê-lo, num mar de monstros politicamente correctos que só vêm apresentar fórmulas gastas e repetitivas, é tão bom ver uma obra tão mal comportada.

domingo, julho 22, 2007

"Restart in 5, 4, 3, 2, 1..."


Demorou. Foi preciso acabar uma licenciatura, repensar algumas coisas, limpar o pó do estaminé e matar alguma preguiça (e muitas saudades) para regressar a este cantinho. Mas cá estou outra vez, o blog está com um novo design (prometido há já quase dois anos - data do último post!) e, espera-se, com toda uma nova dinâmica de escrita.

A emissão segue dentro de momentos... e creio que valerá a pena acompanhá-la.

quinta-feira, setembro 01, 2005

Remodelações...

Quase oito meses sem escrever nada pouco depois de publicar um post a anunciar que "o blog não está morto" é obra.

O CineArte não fechou. Simplesmente passou por um fase difícil do qual espero que esteja agora a chegar ao termo. Dentro dos próximos dias irá voltar a entrar em actividade, com actualizações mais regulares mas provavelmente não tão extensas. De momento, está só numa (ligeira) remodelação que não deverá demorar muito mais tempo.

Entretanto, posso adiantar que nos próximos posts deverá aparecer, inúmeras vezes, a palavra "zombie"...

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Os Melhores de 2004

O princípio do ano é sempre propício à criação de tops e, para compensar a inactividade do site, achei que talvez fosse interessante contribuir com os meus cinco cêntimos para as infindáveis listas de tops que por aí abundam. Assim sendo, o top a seguir apresentado assume-se como sendo inteiramente subjectivo e, como tal, aberto a todas as discordâncias. Provavelmente, amanhã teria feito um top com escolhas bastante diferentes, nem que fosse pelo simples facto de (ainda) não ter visto algumas das obras que mais marcaram a cinéfilia nesta ano passado (caso de, entre outros, “Finding Neverland” ou “Terminal de Aeroporto”). Para evitar as típicas (e injustas) comparações a que os tops se prestam, escolhi não pôr números antes dos filmes e, em vez disso, acompanhá-los de um pequeno texto a justificar a minha escolha. Escrito isto, venham os filmes:

“Lost in Translation – O Amor é um Lugar Estranho” de Sofia Coppola





Tocante, belo, poético, marcante, profundo, brilhante e comovente. São adjectivos que (não) bastam para classifcar Lost in Translation. Sofia Coppola conseguiu, com este filme, sair definitivamente da sombra do seu pai (e a sombra não é nada pequena!), dar a Scarlett Johansson o papel que faz uma carreira, dar a Bill Murray outro que consolida (e, para muitos, ressuscita esplendorosamente) a sua, e tornar Tóquio na cidade mais romântica do planeta. Melancólico sem ser tristonho, belo sem ser espalhafatoso, poético sem ser pedante, profundo sem ser obscuro, complexo sem deixar de ser de uma simplicidade espantosa. É uma daquelas raras maravilhas que nos faz lembrar por que é que começámos a gostar de cinema.

“2046” de Wong Kar-Wai



Pertence àquela categoria tão frágil e problemática que é a dos filmes que ou se ama ou se odeia. Eu amo-o, não há muito mais que se possa dizer. Wong Kar-Wai é o grande poeta-narrador das imagens, e este filme confirma-o como um dos maiores cineastas actualmente em actividade. “Sequela” do magnífico “In The Mood For Love – Disponível para Amar”, WKW pega na personagem principal dessa obra e aventura-se numa dura meditação sobre a mágoa e a dificuldade de sarar as cicatrizes emocionais. O resultado é de uma grandiosidade raramente vista. Mas não é só o realizador que brilha – como esquecer as interpretações de todo o elenco, a belíssima fotografia, a montagem, a música, etc? Não é por acaso que Sofia Coppola, ao receber o Oscar de Melhor Argumento Original, agradeceu a WKW – é tão fácil encontrar afinidades entre ambos os realizadores e as suas obras...

“The Eternal Sunshine of the Spotless Mind – O Despertar da Mente” de Michel Gondry




Sim, Charlie Kaufman é um dos grandes argumentistas actuais quer nos EUA como em todo o mundo. Mas nós já sabiamos isso (vide “Inadaptado”). E, no entanto, eis-nos de boca aberta perante a absoluta maravilha que é “The Eternal Sunshine of the Spotless Mind”, uma comédia genuinamente romântica e atípica que surpreende, mais do que pela sua imensa originalidade, pela sua grande honestidade. Uma montagem estonteante, uma direccção de fotografia que não lhe fica atrás, uma das mais inteligentes utilização de efeitos visuais de que há memória e um conjunto de actores absolutamente formidável são mais do que razões suficientes para ver o filme. Michel Gondry assina aqui uma obra bela, contando com inegável mestria uma daquelas histórias que conseguem a extraordinária proeza de nos fazer acreditar no amor, nem que seja só nos 108 minutos que o filme dura.

“Collateral” de Michael Mann



Não é pelo facto de constituir um passo importante na afirmação do vídeo digital como uma alternativa séria à película de 35mm que Collateral consta desta lista. É um facto que o HDV provavelmente nunca forneceu uma fotografia tão bela como aqui. Mas é todo o resto que nos deixa deslumbrados bem depois dos créditos terem passado no ecrã: o excelente argumento, a realização soberba, as interpretações (com Jamie Foxx e Tom Cruise maravilhosamente à altura um do outro)... e o final. Aquele final. Mann sabe, como poucos, que um thriller de acção pode ser uma obra pessoal e intíma, mas depois do grandioso tour de force que foi “Heat” parecia que nunca mais iamos ver algo parecido. Aqui está a prova contrária.

“O Regresso” de Andreï Zviaguintsev



As comparações com Tarkovski e Pudovkin podem ter sido repetidas até à exaustão, mas o facto é que serviram para chamar a atenção para um dos filmes Russos mais estimulantes dos últimos anos. Vencedor do Leão de Ouro em Veneza, a obra de estreia de Zviaguintsev chegou e impressionou pela sua simplicidade e grande segurança narrativa. É um cinema lento mas nada monótono, bonito mas pouco contemplativo, de aparência “fria” mas de um calor humano tremendo. Um grande exemplo de que o cinema dito “de autor” não tem que ser obscuro para ser interessante.

“Ser e Ter” de Nicholas Philibert



2004 foi um ano de afirmação do documentário nas salas lusas. E este foi um dos grandes títulos que tivemos a oportundidade de ver. Belo e simples tratado sobre a educação, Philibert filma uma turma de infantário do interior da França com uma delicadeza e uma descrição notáveis, evitando cair no erro de comover o público pelo simples acto de mostrar crianças a brincar e a sorrir para a câmara. Mostra, sem paternalismos ou moralismos baratos, que educar é muito mais do que deixar as crianças na escola e obrigá-las a fazer os trabalhos de casa. Houve quem dissesse que esta era uma obra a mostrar a todos os estudantes de pedagogia e educação – e apetece dizer que, realmente, muitos “educadores” portugueses têm tanta coisa a aprender com este filme.

“Fahrenheit 9/11” de Michael Moore



Outro título polémico. Considerado por muitos como um mero (e redundante) panfleto anti-Bush, o filme estreou e, ainda mais acentuadamente do que no anterior “Bowling for Columbine”, imediatamente dividiu o público. Porém, e agora que passou todo o frenesim e a polémica em torno da “parcialidade” do filme, da veracidade do material apresentado e da justeza da atribuição da Palma de Ouro em Cannes, creio que há que olhar com mais atenção (e sem preconceitos ideológicos ou políticos) para a obra que Moore construiu – e encontraremos aqui uma obra documental extremamente pessoal, porque subjectiva e fortemente opinativa, de uma potente e rara eficácia. Não teve o efeito eleitoral com que o realizador sonhava, é um facto. Mas quem quiser, daqui a um século, tentar perceber o que foi exactamente o clima político norte-americano na era Bush terá necessariamente que passar por aqui. Nem que seja para ver que, por vezes, um David pode mesmo dar luta a um Golias...

“21 Gramas” de Alejandro Gonzales Iñarritu



Parecia impossível que após uma grandiosa primeira-obra que, praticamente, obrigou o mundo a pôr os seus olhos no cinema mexicano, o mesmo realizador viesse a criar um filme tão dramaticamente poderoso e igualmente marcante. Mas conseguiu. E de que maneira! Que dizer de um filme onde um trio de actores está sempre (sempre!) no campo do genial? Que dizer de um argumento e de uma realização de um humanismo pura e simplesmente tocante? Que dizer de um dos mais brilhantes trabalhos de montagem dos últimos anos? Simplesmente que é daqueles casos em que tem de se ver o fillme para crer nele...

“Kill Bill 2 – A Vingança” de Quentin Tarantino



Se restavam dúvidas sobre a genialidade do opus 4 de Quentin Tarantino, esta segunda-parte veio definitivamente enterrá-las! Após o exercício estilistico do primeiro filme, Tarantino agarrou nas mesmas personagens e tornou-as não larger than life, mas pura e simplesmente as big as life itself. Não é um filme (só) para localizar referências cinéfilas e passar um bom bocado – é também um drama muito, muito poderoso.

“Tokyo Godfathers – Padrinhos de Tóquio” de Satoshi Kon



Lançado directamente para vídeo em Portugal, a terceira obra de Satoshi Kon veio confirmá-lo como um dos grandes realizadores de animação japonesa contemporânea, apresentando aqui o conto de natal mais original e francamente divertido do ano! Não é, porém, nas áreas técnicas (por muito impecáveis que sejam) que o filme nos deslumbra: é antes o argumento, as personagens minuciosamente construídas e a profunda humanidade de Kon no tratamento da sua história que fazem com que esta obra se torne de (re)visionamento obrigatório na noite da consoada (e não só!). O DVD anda por aí nas estantes das lojas, e é uma das melhores surpresas que estão à espera de serem descobertas por toda a gente que, simplesmente, goste de cinema, seja ele de live-action ou de animação.

domingo, novembro 28, 2004

Nippon Koma - 2nd Edition



Começa amanhã, dia 29, a segunda edição da mostra de cinema documental e animação japonesa Nippon Koma na Culturgest. Ao preço módico de 2€ por bilhete, aqueles que visitarem as salas da CG até dia 4 de Dezembro poderão ver um conjunto bastante diversificado de títulos.

Há que destacar, de entre os vários filmes em cartaz, a exibição de um conjunto de curtas-metragens assinadas pelo lendário Osamu Tezuka (autor de obras marcantes como "Black Jack", "Tetsuwan Atom - Astro Boy" e "Buddha", «pai» das linguagens gráficas e narrativas do manga moderno, bem como um dos grandes realizadores e impulsionadores da industria de animação nipónica), sendo estas exibidas dia 30 de Novembro e 3 de Dezembro. Pela raridade das mesmas, e pela já mencionada importância histórica de Tezuka, é uma sessão a não perder por nada!

Entre os outros títulos em exibição, o documentário "Otaku" de Jean-Jacques Beineix e Jackie Bastide deverá ser de grande interesse, já que aborda um tema muito actual da sociedade japonesa - a vida dos chamados "fãs obsessivos" que vivem unicamente para a sua paixão, seja ela a animação, o cinema, os videojogos, pop-idols, etc. Todos os filmes exibidos estão legendados em inglês, sendo de prever que as versões apresentadas serão as originais japonesas.

Lamenta-se, porém, que tenha sido retirado da programação original o filme "Ghost in the Shell 2 - Innocence" de Mamoru Oshii, a célebre e polémica sequela do original "Ghost in the Shell - A Cidade Assombrada", uma das longas-metragens de animação mais marcantes da década de 90. "Inocence" causou algum barulho em Cannes, onde foi promovido como sendo uma obra revolucionária, mas cuja projecção oficial acabou por deixar muita gente desiludida. Ainda assim, não deixa de ser um dos títulos de animação mais aguardados do ano, e é uma pena saber que não teremos hipótese de o ver, pelo menos, tão cedo. Já é a segunda vez que a Nippon Koma vê um dos filmes anunciados ser removido da programação, já que no ano passado o maravilhoso "Sennen Joyu - Millenium Actress" de Satoshi Kon também não chegou a ser projectado apesar de ter sido anunciado nas primeiras versões do programa. Infelizmente, desde então a única maneira de vermos o dito filme em território português tem sido através da compra do DVD zona 1, via importação nas lojas especializadas ou pela net. Esperemos que o "Innocence" não tenha o mesmo destino, sobretudo quando se sabe que a sua distribuidora para o Ocidente é a mesma (a Dreamworks...). De qualquer modo, este acto não tira mérito às restantes obras que vão ser projectadas, portanto, continua a ser um evento que vale bem a pena visitar!


Aqui fica a programação, retirada directamente do site oficial:

29 de Novembro

18h30
Winter Days, 2003
de Kawamoto Kihachiro
1h45 · animação

21h30
Otaku, 1994
de Jean-Jacques Beineix
1h17 · documentário



30 de Novembro

18h30
Tales of a Street Corner, 1962
Pictures at an exhibition, 1966

Jumping,
1984

Broken Down Film
, 1985
de Tezuka Osamu
1h24 · animação

21h30
Knocking on Heavens’s door - Kamagasaki, 2002
de Brice Pedroletti
1h02 · documentário



1 de Dezembro


18h30
Conjunto de animações de Akagi Takanori, Nagata Naomi, Hanahiro Junko, entre outros.
1h34 · animação

21h30
Dream Girls, 1993
de Kim Longinotto e Jano Williams
50' · documentário


2 de Dezembro

18h30
Dream Girls, 1993
de Kim Longinotto e Jano Williams
50' · documentário

21h30
Conjunto de animações de Akagi Takanori, Nagata Naomi, Hanahiro Junko, entre outros.
1h34 · animação



3 de Dezembro

18h30
Knocking on Heavens’s door - Kamagasaki, 2002
de Brice Pedroletti
1h02 · documentário

21h30
Tales of a Street Corner, 1962
Pictures at an exhibition, 1966

Jumping,
1984

Broken Down Film
, 1985
de Tezuka Osamu
1h24 · animação


4 de Dezembro

18h30
Otaku, 1994
de Jean-Jacques Beineix
1h17 · documentário

21h30
Winter Days, 2003
de Kawamoto Kihachiro
1h45 · animação



sábado, novembro 20, 2004

Not Dead Yet...

Não, ao contrário do que possa parecer, o CineArte não fechou as portas. Nem por sombras. Simplesmente acontece que, como já foi aludido num dos posts anteriores, a minha incapacidade de gerir o (pouco) tempo livre das aulas não tem permitido com que o site tivesse actualizações dignas desse nome. Daí que, durante um mês inteiro, isto não se tenha mexido. Porém, espero nesta próxima semana ir pondo aqui novos textos que, de uma forma ou de outra, compensem o tempo perdido.

Um honesto "obrigado" a todos os que, apesar da inactividade do site, o têm visitado e... bem, fiquem para ver os updates!

domingo, outubro 10, 2004

DVD killed the Video star


Outro dia, depois de uma jornada de aulas particularmente cansativa, decidi dar um salto pelo meu videoclube para alugar um filme que sabia que tinham em catálogo - "Terror na Ópera" de Dario Argento.

Chego lá e deparo-me com uma situação que me deixou um tanto despedaçado - um cartaz com a inscriçao "Liquidação Total de videocassetes - €1 por VHS" junto a uma prateleira com todas as VHS que o videoclube costumava ter, sendo que estas não estavam ordenadas nem por ordem alfabética, nem por género nem por nada. Não perguntei as razões por esta liquidação ao rapaz que estava na caixa, mas também não era preciso - bastava olhar para as restantes prateleiras para ver que o DVD estava a reclamar a totalidade da loja, e o VHS, formato há muito condenado a sucumbir ao disco digital versátil, tinha finalmente hasteado a bandeira branca. Infelizmente, parece-me.

Faço parte de uma geração que nasceu e cresceu com o VHS. Vi uma grande parte dos filmes que formaram a minha cinéfilia neste formato, e algumas das memórias mais ternas da minha infância são daqueles momentos em que passava largos minutos com os meus pais e o meu irmão a escolher quais os dois filmes de três dias que iamos levar para casa. Através das cassetes do videoclube, conheci os clássicos de Hitchcock, Eisenstein, Kubrick ou Coppola; os filmes de terror de série B e os de culto de Sam Raimi ou John Carpenter; os grandes "blockbusters" e os filmes "de autor"; as comédias geniais e as intragáveis; algumas das mais variadas séries de animação; e até títulos que hoje considero mediocres mas que na altura me encantaram! Custou-me tremendamente ver aquelas cassetes, muitas das quais me lembro de ter tido em casa numa altura ou noutra da minha vida, estarem agora a serem desprezadas e dispensadas ao preço de dois cafés. É a ordem natural das coisas, claro - afinal, ainda me lembro daquelas estranhas cassetes (que vim a descobrir chamarem-se BETA...) terem também desaparecido de um dia para o outro das poucas prateleiras em que se encontravam. Talvez por nunca terem feito parte da minha vida, não me custou nada vê-las sumir das estantes. Mas com o VHS...

Não é que não estivesse à espera que isto viesse a acontecer. Mas creio que uma das funções que um videoclube deve(ria) ter é a de arquivo cinematográfico local, como que um "banco de memórias" sempre acessível a todos por um preço irrisório. Ao desembaraçarem-se daquelas VHS, não é só das fitas magnéticas e das caixas de plástico que se estão a livrar, mas também de todo um conjunto incalculável de títulos que dificilmente voltaremos a ver em DVD, pelo menos em Portugal. É uma certa memória (ou imaginário) colectiva que desaparece. E isso não consigo deixar de achar lamentável.

Lá encontrei e comprei o "Terror Na Ópera", numa edição da já exinta Videotime. Só uns dias mais tarde é que pude ver o filme. E então, o efeito nostalgia fez-se sentir: os avisos do copyright, as trailers de filmes relativamente conhecidos misturadas com as de títulos quase totalmente obscuros, as legendas ultra-grossas, a qualidade de imagem nunca impecável devido aos fracos telecinemas que se realizavam na altura (mas que deixaram um "charme" incrível em certos filmes), o genérico final recheado de riscos graças aos leitores de vídeo deficientes por onde terá passado a cassete... Creio que percebi, nos 90 minutos de duração do filme, o que é que os apologistas do LP sentem quando dizem que o CD pode ser maravilhoso, mas que o disco de vínil terá sempre o seu encanto...

terça-feira, outubro 05, 2004

La Rentrée...


Amanhã regresso à condição de estudante activo, e começo logo às nove e meia da manhã com uma aula de Realização, ainda por cima! O que isto quer dizer é que é possível que os updates ao blog venham a escassear ainda mais do que é habitual - o triste facto de quase todos os dias ter aulas até às 20h 30m também não ajuda! No entanto, prometo fazer um esforço para ver se consigo que o blog não ganhe pó e vá merecendo as visitas que recebe, portanto, para utilizar pela enésima vez esse slogan tão batido, «estejam atentos»!

Entretanto, escolhi passar parte do meu último dia de férias a rever essa obra-prima da 7ª arte que é "Lost In Translation" de Sofia Coppola. Poucos filmes conseguiram tocar-me tanto quanto este. Já faz parte da minha lista de filmes da minha vida, e como este post é suposto ser breve, não me vou alongar a comentá-lo. Simplesmente vão por mim que é lindo. É um belo "beijo" de rentrée... e um belo e misterioso sussurro tambem.

segunda-feira, outubro 04, 2004

Comentário (sobretudo) sobre a narrativa de "A Vila"

"A Vila" (The Village) é um filme que suscitou, aquando do seu lançamento nas salas, uma divisão tremenda entre os que o viram- ora uns o defendiam como a melhor obra do seu cineasta e a prova de que este é muito mais do que um dos novos mestres do suspense, ora outros diziam que o filme falhava totalmente. Não acho que me encontre em nenhum destes polos opostos, mas o certo é que, até agora, "A Vila" é o desapontamento do ano, pelo menos para mim. Antes de continuar, há que dizer que sou fã da obra de M. Night Shyamalan e que esperava este "A Vila" com grande ansiedade. Acredito que o cineasta é um dos mais interessantes realizadores contemporâneos a trabalhar nos EUA, e basta olhar para o resto dos seus filmes para perceber que Shyamalan não é de todo um tarefeiro confortavelmente instalado no sistema de Hollywood mas sim um Autor, com um universo muito pessoal e dotado de uma grande capacidade de falar com o público. Como muitos outros, adorei "O Sexto Sentido", gostei bastante do "Unbreakable - O Protegido", e achei que o "Signs - Sinais" fazia todo o sentido e que foi muito subestimado pela crítica.


No entanto, não consigo olhar com a mesma satisfação para "A Vila". O seu principal defeito não é, como muitos já escreveram, o facto de não ser verdadeiramente um filme de terror carregado de "twists" e momentos de arrepiar como os títulos anteriores - aliás, até diria que a primeira parte do filme contém momentos de puro horror muito bem construidos que fazem perceber que Shyamalan não perdeu o seu toque. A questão fundamental está no argumento. É impossível descrever as falhas deste sem estragar o enredo do filme, portanto, aconselho a quem ainda não o viu e quiser desfrutar plenamente da história a saltar os próximos quatro parágrafos. Os restantes estão avisados...

- SPOILER ALERT -

Se olharmos bem, o cerne da história tem uma premissa genial - a ideia de, em pleno século XXI, existir uma aldeia escondida do resto do mundo numa reserva natural concebida por um grupo de anciãos que visa manter a inocência e pureza dos seus aldeões (que permanecem na ignorância e pensam que vivem no século XIX) isolando-os lá usando, para os assustar, uma mitologia da existência de monstros na floresta que os cerca é, de facto, uma brilhante setup para um filme, podendo até ser vista como uma metáfora de uma América que, nos dias de hoje, prefere isolar-se do resto do mundo no seu "combate ao terror/mal" de modo a preservar a sua "inocência" das mãos de "monstros da floresta" criados pelos seus próprios dirigentes unicamente para sustentar uma sociedade baseada no medo constante. A ideia de alguém vir perturbar a normalidade daquela aldeia ao desconfiar que "há segredos por todo o lado" e ao desejar entrar na floresta também é fabulosa. O problema é o modo como Shyamalan desenvolve estas ideias. Para começar, o romance entre o solitário Lucius (Joaquin Phoenix) e a cega Ivy (Bryce Dallas Howard), que será o verdadeiro ponto de partida para o conflito dramático do filme, é inserido quase a pontapé na narrativa, não nos dando tempo para conseguir achar aquela relação real. Sabemos que, quando eram miúdos, gostavam muito um do outro e é desses tempos que remonta a sua paixão actual mas, para além de uma cena (das melhores do filme) em que Lucius salva Ivy de um dos "monstros", não vemos aquela relação crescer nem nos é (suficientemente) dada a ideia de que ali estava uma "paixão contida" estabelecida há anos. O triângulo amoroso com Noah (Adrien Brody, em grande forma) é uma concepção infeliz, e não consigo de deixar de achar de muito mau gosto a ideia de fazerem de um atrasado mental o antagonista de Ivy, isto para não falar na ridícula cena em que os anciãos descobrem que Noah encontrou um fato de monstro debaixo do soalho da casa de castigo - caramba, tinha LOGO que ser ali que o iam esconder???

Quem realçou como característica autoral de Shyamalan os twists narrativos que tão bem resultaram no "Sexto Sentido", no "Sinais" e até no "Unbreakable", vai encontrar aqui um exercício muito menos eficaz dos mesmos. A revelação de que toda aquela sociedade é uma farsa (o principal twist) surge cedo de mais na história, não é um «murro no estômago» tão forte quanto poderia ser e deixa os restantes minutos do filme sem a grande tensão de suspense que até então fora construida. Quando Ivy chega ao exterior da reserva, por exemplo, as cenas carecem de alguma força dramática porque aquilo que vemos não é verdadeiramente chocante nem revelador - o que ressalta é o efeito cómico das reacções estupefactas do polícia! O outro twist (o ataque de Noah vestido de monstro, que durante alguns segundos faz-nos crer que, afinal, sempre há demónios na floresta) é um «cheap-shot» que se revela froxo e pouco imaginativo, como se tivesse sido inserido para dar alguma dinâmica a uma situação, de resto, pouco interessante.

Igualmente, a personagem fulcral de Walker (William Hurt) é muito pouco credível - quem consegue acreditar que um "avôzinho" tão querido, doce e simpático seja a mente perversa por de trás de um esquema tão diabólico? Nunca conseguimos não simpatizar com aquela personagem que passa grande parte do tempo a gabar as virtudes de Lucius, nem vislumbrar nele um lado perverso capaz de arquitectar toda aquela farsa. Aliás, se o romance entre Lucius e Ivy parece forçado, já a relação entre Walker e Hunt (Sigourney Weaver) parece ser a mais convincente e interessante de todo o filme - e por isso mesmo é uma pena que o realizador não lhe dê mais atenção. Como também é pena que o amigo de Lucius (aquele que faz a vigia da aldeia) desapareça da história a certa altura sem deixar qualquer rasto - era dos poucos elementos que verdadeiramente humanizava a personagem de Lucius.

Por fim, Shyamalan escolhe encerrar o filme com um final em aberto não muito feliz. O problema assenta no facto do realizador ter-nos deixado com perguntas que, a meu ver, precisavam pelo menos de algo que nos deixasse uma sugestão do que iria acontecer muito depois do rolar dos créditos. Podia ficar no ar qual a maneira como os aldeões reagiriam à descoberta de que a vida que tinham tido até então era uma pura encenação, mas a questão é que nem nos é dado a saber se eles alguma vez descobrirão isso (a cena final, com os anciãos a debaterem o assunto e Ivy a fazer o seu regresso, não sugere nem que a "verdade vá ser dita" nem que tudo vá ficar na mesma - não sabemos sequer se Ivy tem intenções de contar tudo aos aldeões!). Daí que, mesmo como uma eventual crítica política, acabe por se revelar ineficaz. E, como história de amor, pouco comovente.

- SPOILER END -

Acrescentemos a isto alguns diálogos francamente maus ("The world moves for love. It kneels before it in awe!") e uma música de fundo que alterna entre a muito bem colocada e a excessivamente presente, e temos um filme que poderia ter sido mesmo muito melhor. Naturalmente, existem pontos positivos que convém realçar: Bryce Dallas Howard é uma verdadeira revelação; a direcção de fotografia de Roger Deakins dá uma beleza visual enorme à pelicula e, juntamente com um trabalho de direcção de som várias vezes soberbo, cria o ambiente necessário. O guarda-roupa, a direcção de actores e a art-direction também são factores muito positivos a ter em conta.



Um passo em falso. Mas Shyamalan não deixa de ser um realizador de enorme talento, e o seu próximo filme, que já garantiu ser consideravelmente diferente de todas as obras anteriores, promete dar-nos a ver novas qualidades do autor de "O Sexto Sentido".

Bloco de Notas: Clássicos Americanos no Público

Descobri, ao ler um post no Moviesuniverse, que a Série Y do Público terminou para dar lugar a uma nova colectânea de filmes, sendo esta dedicada ao cinema clássico Norte-Americano. Os filmes são, no fundo, uma reedição a baixo preço de vários títulos do vasto e rico catálogo da Costa do Castelo.

Trata-se de uma iniciativa que de certo agradará a todos os cinéfilos portugueses. Agora que a RTP 2 (err, desculpem, "A 2") mantém-nos alimentados com uma dieta de «um» filme por semana, sendo a escolha do título em questão relativamente aleatória (pelo menos assim parece), é bom saber que sempre há uma outra via de acesso para vermos ou revermos algumas das obras que fizeram história e marcaram gerações de cinéfilos e cineastas em todo o mundo. Além disso, agora que filmes como "O Mundo a Seus Pés" ou "Suspeita" estão disponiveis a um preço acessível, já não há desculpas para não os incluirem na vossa colecção!

Para mais detalhes e para consultarem a lista completa dos títulos que vão ser editados, visitem o site oficial da colecção.

Fonte: Moviesuniverse.

sexta-feira, outubro 01, 2004

Bloco de Notas: lista de candidatos admitidos à Escola Superior de Teatro e Cinema

Já sairam os resultados das candidaturas ao curso de cinema da Escola Superior de Teatro e Cinema. Embora a lista apresentada não esteja devidamente ordenada, fazendo as contas dá para perceber quem entrou e quem ficou de fora. Para quem vai agora fazer o seu primeiro ano do curso, os meus sinceros parabéns e espero que a passagem pela escola resulte em muitos e bons filmes! Para os que não entraram, não há que desanimar: perdoem os lugares comuns, mas (sem cinismos) acontece aos melhores, há sempre o próximo ano e, além disso, lembremo-nos que Rainer Werner Fassbinder não passou o exame de admissão na Escola e Cinema de Televisão e, hoje, é «só» considerado um dos maiores cineastas alemães de todos os tempos!
De qualquer modo, uma boa rentrée a todos!