"Film has the magic quality of being able to photograph thought" - Nicholas Ray, in "I Was Interrupted"
quinta-feira, setembro 01, 2005
Remodelações...
O CineArte não fechou. Simplesmente passou por um fase difícil do qual espero que esteja agora a chegar ao termo. Dentro dos próximos dias irá voltar a entrar em actividade, com actualizações mais regulares mas provavelmente não tão extensas. De momento, está só numa (ligeira) remodelação que não deverá demorar muito mais tempo.
Entretanto, posso adiantar que nos próximos posts deverá aparecer, inúmeras vezes, a palavra "zombie"...
quarta-feira, janeiro 12, 2005
Os Melhores de 2004
“Lost in Translation – O Amor é um Lugar Estranho” de Sofia Coppola

Tocante, belo, poético, marcante, profundo, brilhante e comovente. São adjectivos que (não) bastam para classifcar Lost in Translation. Sofia Coppola conseguiu, com este filme, sair definitivamente da sombra do seu pai (e a sombra não é nada pequena!), dar a Scarlett Johansson o papel que faz uma carreira, dar a Bill Murray outro que consolida (e, para muitos, ressuscita esplendorosamente) a sua, e tornar Tóquio na cidade mais romântica do planeta. Melancólico sem ser tristonho, belo sem ser espalhafatoso, poético sem ser pedante, profundo sem ser obscuro, complexo sem deixar de ser de uma simplicidade espantosa. É uma daquelas raras maravilhas que nos faz lembrar por que é que começámos a gostar de cinema.
“2046” de Wong Kar-Wai

Pertence àquela categoria tão frágil e problemática que é a dos filmes que ou se ama ou se odeia. Eu amo-o, não há muito mais que se possa dizer. Wong Kar-Wai é o grande poeta-narrador das imagens, e este filme confirma-o como um dos maiores cineastas actualmente em actividade. “Sequela” do magnífico “In The Mood For Love – Disponível para Amar”, WKW pega na personagem principal dessa obra e aventura-se numa dura meditação sobre a mágoa e a dificuldade de sarar as cicatrizes emocionais. O resultado é de uma grandiosidade raramente vista. Mas não é só o realizador que brilha – como esquecer as interpretações de todo o elenco, a belíssima fotografia, a montagem, a música, etc? Não é por acaso que Sofia Coppola, ao receber o Oscar de Melhor Argumento Original, agradeceu a WKW – é tão fácil encontrar afinidades entre ambos os realizadores e as suas obras...
“The Eternal Sunshine of the Spotless Mind – O Despertar da Mente” de Michel Gondry

Sim, Charlie Kaufman é um dos grandes argumentistas actuais quer nos EUA como em todo o mundo. Mas nós já sabiamos isso (vide “Inadaptado”). E, no entanto, eis-nos de boca aberta perante a absoluta maravilha que é “The Eternal Sunshine of the Spotless Mind”, uma comédia genuinamente romântica e atípica que surpreende, mais do que pela sua imensa originalidade, pela sua grande honestidade. Uma montagem estonteante, uma direccção de fotografia que não lhe fica atrás, uma das mais inteligentes utilização de efeitos visuais de que há memória e um conjunto de actores absolutamente formidável são mais do que razões suficientes para ver o filme. Michel Gondry assina aqui uma obra bela, contando com inegável mestria uma daquelas histórias que conseguem a extraordinária proeza de nos fazer acreditar no amor, nem que seja só nos 108 minutos que o filme dura.
“Collateral” de Michael Mann

Não é pelo facto de constituir um passo importante na afirmação do vídeo digital como uma alternativa séria à película de 35mm que Collateral consta desta lista. É um facto que o HDV provavelmente nunca forneceu uma fotografia tão bela como aqui. Mas é todo o resto que nos deixa deslumbrados bem depois dos créditos terem passado no ecrã: o excelente argumento, a realização soberba, as interpretações (com Jamie Foxx e Tom Cruise maravilhosamente à altura um do outro)... e o final. Aquele final. Mann sabe, como poucos, que um thriller de acção pode ser uma obra pessoal e intíma, mas depois do grandioso tour de force que foi “Heat” parecia que nunca mais iamos ver algo parecido. Aqui está a prova contrária.
“O Regresso” de Andreï Zviaguintsev

As comparações com Tarkovski e Pudovkin podem ter sido repetidas até à exaustão, mas o facto é que serviram para chamar a atenção para um dos filmes Russos mais estimulantes dos últimos anos. Vencedor do Leão de Ouro em Veneza, a obra de estreia de Zviaguintsev chegou e impressionou pela sua simplicidade e grande segurança narrativa. É um cinema lento mas nada monótono, bonito mas pouco contemplativo, de aparência “fria” mas de um calor humano tremendo. Um grande exemplo de que o cinema dito “de autor” não tem que ser obscuro para ser interessante.
“Ser e Ter” de Nicholas Philibert

2004 foi um ano de afirmação do documentário nas salas lusas. E este foi um dos grandes títulos que tivemos a oportundidade de ver. Belo e simples tratado sobre a educação, Philibert filma uma turma de infantário do interior da França com uma delicadeza e uma descrição notáveis, evitando cair no erro de comover o público pelo simples acto de mostrar crianças a brincar e a sorrir para a câmara. Mostra, sem paternalismos ou moralismos baratos, que educar é muito mais do que deixar as crianças na escola e obrigá-las a fazer os trabalhos de casa. Houve quem dissesse que esta era uma obra a mostrar a todos os estudantes de pedagogia e educação – e apetece dizer que, realmente, muitos “educadores” portugueses têm tanta coisa a aprender com este filme.
“Fahrenheit 9/11” de Michael Moore

Outro título polémico. Considerado por muitos como um mero (e redundante) panfleto anti-Bush, o filme estreou e, ainda mais acentuadamente do que no anterior “Bowling for Columbine”, imediatamente dividiu o público. Porém, e agora que passou todo o frenesim e a polémica em torno da “parcialidade” do filme, da veracidade do material apresentado e da justeza da atribuição da Palma de Ouro em Cannes, creio que há que olhar com mais atenção (e sem preconceitos ideológicos ou políticos) para a obra que Moore construiu – e encontraremos aqui uma obra documental extremamente pessoal, porque subjectiva e fortemente opinativa, de uma potente e rara eficácia. Não teve o efeito eleitoral com que o realizador sonhava, é um facto. Mas quem quiser, daqui a um século, tentar perceber o que foi exactamente o clima político norte-americano na era Bush terá necessariamente que passar por aqui. Nem que seja para ver que, por vezes, um David pode mesmo dar luta a um Golias...
“21 Gramas” de Alejandro Gonzales Iñarritu

Parecia impossível que após uma grandiosa primeira-obra que, praticamente, obrigou o mundo a pôr os seus olhos no cinema mexicano, o mesmo realizador viesse a criar um filme tão dramaticamente poderoso e igualmente marcante. Mas conseguiu. E de que maneira! Que dizer de um filme onde um trio de actores está sempre (sempre!) no campo do genial? Que dizer de um argumento e de uma realização de um humanismo pura e simplesmente tocante? Que dizer de um dos mais brilhantes trabalhos de montagem dos últimos anos? Simplesmente que é daqueles casos em que tem de se ver o fillme para crer nele...
“Kill Bill 2 – A Vingança” de Quentin Tarantino

Se restavam dúvidas sobre a genialidade do opus 4 de Quentin Tarantino, esta segunda-parte veio definitivamente enterrá-las! Após o exercício estilistico do primeiro filme, Tarantino agarrou nas mesmas personagens e tornou-as não larger than life, mas pura e simplesmente as big as life itself. Não é um filme (só) para localizar referências cinéfilas e passar um bom bocado – é também um drama muito, muito poderoso.
“Tokyo Godfathers – Padrinhos de Tóquio” de Satoshi Kon

Lançado directamente para vídeo em Portugal, a terceira obra de Satoshi Kon veio confirmá-lo como um dos grandes realizadores de animação japonesa contemporânea, apresentando aqui o conto de natal mais original e francamente divertido do ano! Não é, porém, nas áreas técnicas (por muito impecáveis que sejam) que o filme nos deslumbra: é antes o argumento, as personagens minuciosamente construídas e a profunda humanidade de Kon no tratamento da sua história que fazem com que esta obra se torne de (re)visionamento obrigatório na noite da consoada (e não só!). O DVD anda por aí nas estantes das lojas, e é uma das melhores surpresas que estão à espera de serem descobertas por toda a gente que, simplesmente, goste de cinema, seja ele de live-action ou de animação.
domingo, novembro 28, 2004
Nippon Koma - 2nd Edition
18h30
de Kawamoto Kihachiro
1h45 · animação
21h30
Otaku, 1994
de Jean-Jacques Beineix
1h17 · documentário
30 de Novembro
18h30
Tales of a Street Corner, 1962
Pictures at an exhibition, 1966
Jumping, 1984
Broken Down Film, 1985
de Tezuka Osamu
1h24 · animação
21h30
Knocking on Heavens’s door - Kamagasaki, 2002
de Brice Pedroletti
1h02 · documentário
1 de Dezembro
18h30
Conjunto de animações de Akagi Takanori, Nagata Naomi, Hanahiro Junko, entre outros.
1h34 · animação
21h30
Dream Girls, 1993
de Kim Longinotto e Jano Williams
50' · documentário
2 de Dezembro
18h30
Dream Girls, 1993
de Kim Longinotto e Jano Williams
50' · documentário
21h30
Conjunto de animações de Akagi Takanori, Nagata Naomi, Hanahiro Junko, entre outros.
1h34 · animação
3 de Dezembro
18h30
Knocking on Heavens’s door - Kamagasaki, 2002
de Brice Pedroletti
1h02 · documentário
21h30
Tales of a Street Corner, 1962
Pictures at an exhibition, 1966
Jumping, 1984
Broken Down Film, 1985
de Tezuka Osamu
1h24 · animação
4 de Dezembro
18h30
Otaku, 1994
de Jean-Jacques Beineix
1h17 · documentário
21h30
Winter Days, 2003
de Kawamoto Kihachiro
1h45 · animação
sábado, novembro 20, 2004
Not Dead Yet...
Um honesto "obrigado" a todos os que, apesar da inactividade do site, o têm visitado e... bem, fiquem para ver os updates!
domingo, outubro 10, 2004
DVD killed the Video star

Outro dia, depois de uma jornada de aulas particularmente cansativa, decidi dar um salto pelo meu videoclube para alugar um filme que sabia que tinham em catálogo - "Terror na Ópera" de Dario Argento.
terça-feira, outubro 05, 2004
La Rentrée...

Amanhã regresso à condição de estudante activo, e começo logo às nove e meia da manhã com uma aula de Realização, ainda por cima! O que isto quer dizer é que é possível que os updates ao blog venham a escassear ainda mais do que é habitual - o triste facto de quase todos os dias ter aulas até às 20h 30m também não ajuda! No entanto, prometo fazer um esforço para ver se consigo que o blog não ganhe pó e vá merecendo as visitas que recebe, portanto, para utilizar pela enésima vez esse slogan tão batido, «estejam atentos»!
Entretanto, escolhi passar parte do meu último dia de férias a rever essa obra-prima da 7ª arte que é "Lost In Translation" de Sofia Coppola. Poucos filmes conseguiram tocar-me tanto quanto este. Já faz parte da minha lista de filmes da minha vida, e como este post é suposto ser breve, não me vou alongar a comentá-lo. Simplesmente vão por mim que é lindo. É um belo "beijo" de rentrée... e um belo e misterioso sussurro tambem.
segunda-feira, outubro 04, 2004
Comentário (sobretudo) sobre a narrativa de "A Vila"



Bloco de Notas: Clássicos Americanos no Público
Trata-se de uma iniciativa que de certo agradará a todos os cinéfilos portugueses. Agora que a RTP 2 (err, desculpem, "A 2") mantém-nos alimentados com uma dieta de «um» filme por semana, sendo a escolha do título em questão relativamente aleatória (pelo menos assim parece), é bom saber que sempre há uma outra via de acesso para vermos ou revermos algumas das obras que fizeram história e marcaram gerações de cinéfilos e cineastas em todo o mundo. Além disso, agora que filmes como "O Mundo a Seus Pés" ou "Suspeita" estão disponiveis a um preço acessível, já não há desculpas para não os incluirem na vossa colecção!
Para mais detalhes e para consultarem a lista completa dos títulos que vão ser editados, visitem o site oficial da colecção.
Fonte: Moviesuniverse.
sexta-feira, outubro 01, 2004
Bloco de Notas: lista de candidatos admitidos à Escola Superior de Teatro e Cinema
sábado, setembro 25, 2004
Evento: Indie Lisboa - Festival Internacional de Cinema Independente de Lisboa
A notícia já vem tarde, mas de qualquer maneira convém relembrar que começou ontem a primeira edição do Festival Internacional de Cinema Independente de Lisboa, um evento organizado na capital pela Associação Zero em Comportamento, os mesmos senhores que nos prestaram alguns ciclos memoráveis nas saudosas sessões de culto das quais o Cine-Estúdio 222 costumava ser palco. A programação está disponível em formato .pdf no próprio site, sendo de destacar a homenagem ao Festival de Cinema de Sundance.
O surgimento deste festival é uma autêntica lufada de ar fresco no panorama lisboeta, que antes desta iniciativa tinha como único ponto de referência o Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa (que, aliás, termina hoje a sua oitava edição). Esperemos que a adesão ao novo festival seja significativa para que, assim, este possa continuar, crescer e oferecer todos os anos novas e cada vez mais aliciantes propostas.
segunda-feira, setembro 20, 2004
Surpresas agradáveis: "Amor e Dedinhos de Pé" de Luís Filipe Rocha

"Amor e Dedinhos de Pé" foi o filme que marcou o regresso à sétima arte de Luís Filipe Rocha depois de um período de passagem por Macau em que não assinou qualquer obra. Adaptando, com a colaboração de Izaías Almada, o romance homónimo de Henrique Senna Fernandes, este retorno do realizador de "Cerromaior" não costuma ser o título mais referenciado quando se fala da sua carreira cinematográfica. Injustamente, parece-me: "Amor e Dedinhos de Pé" não só ilustra perfeitamente as preocupações de Luís Filipe Rocha na construçãoo de uma narrativa interessante e coerente como é, na minha opinião, o seu melhor filme.

A história situa-se em Macau, nos primeiros anos do século XX. Francisco Frontaria (Joaquim de Almeida), um bon-vivant filho de uma família prestigiada, passa a vida na borga com o seu circulo de amigos: de apostas manhosas, jogos de adultério e destruição de casamentos, tudo parece valer para fazer o tempo passar agradavelmente. O seu encontro com Victorina Vidal (Ana Torrent), a "Mulher mais feia de Macau", vai inicialmente não passar de uma birra entre os dois. Porém, as consequências das acções de Frontaria vão fazer com que ambos se voltem a cruzar, anos mais tarde, em circunstâncias muito diferentes. Circunstâncias que obrigarão duas pessoas aparentemente tão diferentes a entender-se e, também, a descobrirem-se melhor um ao outro...
Esta "aventura" macaense pressupunha vários riscos de produção. Riscos esses largamente ultrapassados: nunca se nota qualquer limitação de produção ou constrangimento orçamental na construção narrativa do filme. Não há "planos a menos" ou cenas tecnicamente mais fracas que destoem do conjunto. E a dobragem dos actores estrangeiros não distrai, o que é sempre de louvar numa co-produção.

O que surpreende no filme é a enorme qualidade de tudo o que o constitui: a belíssima fotografia de Eduardo Serra, as interpretações excelentes dos actores (e tenhamos em conta que Joaquim de Almeida e Ana Torrent têm cenas em que falam cantonês durante minutos a fio!), o mais que fiel trabalho de reconstituição da época, a realização segura e dinâmica. É uma história bem contada, com uma grande beleza visual, uma técnica impecável e um trabalho dramático bem acima da média.
Defeitos? O final é talvez o ponto mais frágil do filme, já que parece ter sido "feito a despachar". Sabe-se que o realizador e o argumentista optaram por escrever um final menos "delicodoce" e mais em-aberto do que aquele que se pode ler no romance, mas a cena final acaba por revelar-se demasiado abrupta. E o título do filme não é propriamente apelativo. No entanto, para quê ligar a estes pormenores quando tudo o que veio antes é do mais estimulante que a nossa cinematografia tem para oferecer?
Por €8.90, parece-me mesmo muito pouco...
quinta-feira, setembro 09, 2004
Chamada de atenção: "Chungking Express" em DVD na Premiere

Quem comprar a edição de Setembro da Premiere portuguesa, e não se importar de gastar mais uns miseros dez euros, vai receber um excelente presente cinematográfico: trata-se do DVD do maravilhoso "Chungking Express" de Wong Kar-Wai.
É difícil falar de um filme sobre o qual parece que (quase) tudo já foi escrito. Filmado num espírito de guerrilha completamente apaixonante, "Chungking Express" liga duas histórias de "amor solitário" passadas na cidade de Hong-Kong. Numa das histórias, um polícia de coração recentemente despedaçado passa os dias a tentar perceber porque foi deixado pela sua antiga namorada, enquanto vai devorando latas após latas de ananás prestes a ficar fora-de-prazo. Num acto de puro impulso, promete apaixonar-se pela primeira mulher que entrar no bar onde consola as suas feridas emocionais. A questão é que essa mulher acaba por ser uma passadora em fuga... Na segunda história, um outro polícia de coração recentemente despedaçado torna-se o objecto de adoração de uma empregada do "Expresso Chunking", um carrinho-ambulante onde o mencionado polícia costuma ir comprar o seu almoço. Ao som constante de "California Dreamin'" dos Mamas and Papas, a rapariga vai, aos poucos, entrando na vida do polícia, mesmo que não o faça pelas maneiras mais tradicionais... Tudo isto "pintado" através da belíssima fotografia de Christopher Doyle, interpretado por um elenco extraordinário e brilhantemente contado pelo Mestre de uma certa narrativa-poética que é Wong Kar-Wai.
Há quem tenha comparado este filme com "O Acossado" de Jean Luc-Godard. WKW não nega a homenagem, e julgo que a comparação é mais que justa. Como alguém escreveu no guia de filmes da Time-Out "This is what Godard movies were once like: fast, hand-held, funny and very, very catchy".
A edição portuguesa da Atalanta Filmes não tem quaisquer extras à excepção de trailers para este filme e para o "Fallen Angels", mas talvez servirá de consolo saber que não existem edições estrangeiras muito melhores (havia uma britânica ou americana que continha uma pequena introdução por Quentin Tarantino, mas nada mais). Por €12.50, é um crime passar ao lado deste filme magnífico!
Uma obra-prima em absoluto, a ver (de preferência) numa sessão-dupla com a sua semi-sequela, o extrarodinário "Anjos Caídos".
P.S. - Tanto o DVD de "Chungking Express" como o de "Anjos Caídos" estão à venda em Portugal ao preço confortável de €14,49. Portanto, se não conseguirem arranjar o primeiro pela Premiere e/ou quiserem revisitar a Hong-Kong de WKW, sempre têm bom remédio...
P.P.S. - Se tudo correr bem, quando "2046", o novo filme de WKW, chegar às salas portuesas, voltarei a este "Chungking Express" (e a outros filmes) para um texto maior e melhor sobre o cineasta de Hong-Kong e a sua obra...
Desconte-se o público!
De acordo com o noticiário da SIC Notícias, os distribuidores e exibidores estão a ponderar algumas medidas para lidar com esta sua nova obrigação. Uma delas passa pelo aumento do preço dos bilhetes (que, assim, ultrapassaria os já indesejáveis 5 euros) e a outra pela extinção dos descontos dos bilhetes à segunda-feira.
Qualquer uma destas soluções é, a meu ver, alarmante. O objectivo da Nova Lei (pelo menos na teoria) é o de dinamizar o sector do cinema português e tornar os distribuidores nacionais em investidores activos e com poder de decisão no que diz respeito aos montantes que investem. O problema é que subir o preço dos bilhetes ou acabar com os descontos de 2ª feira só resultará num afastamento incalculável das salas de cinema pela parte do público.
Os descontos de 2ª feira (bem como os provenientes dos cartões que o fornecem, como o Cartão Jovem) e o preço relativamente acessível dos bilhetes (abaixo de uma boa parte dos restantes países europeus) têm sido factores cruciais no crescimento diversificação da oferta cinematográfica em Portugal. Ainda assim, se actualmente um "português médio" já tem dificuldade a desembolsar cinco euros por um bilhete e, portanto, tem tendência a ir ver os filmes "de que está habituado a gostar" (ie: blockbusters e grandes produções americanas) em vez de experimentar algo de novo ou do qual tem uma imagem não muito boa (ie: os filmes portugueses!); com o aumento do preço dos bilhetes, menos o espectador arrisca, menos público tem o cinema português e as restantes cinematografias mundiais. E o fundo de investimento acaba por cair em saco roto...
quarta-feira, setembro 01, 2004
"Spartan - O Rapto"

Scott (Val Kilmer), um agente das forças especiais norte-americanas, é destacado do seu actual posto de treinador de soldados debutantes para participar numa missão muito particular: resgatar a filha do presidente dos EUA, que foi raptada quando o seu guarda-costas não lhe estava a prestar atenção, sendo que o seu resgate tem que ser realizado o mais rápido possível pois, no fim de contas, as eleições estão à porta... A investigação que se segue, porém, vai revelar que o que está em jogo é muito diferente daquilo que se esperava.
A sinopse atrás apresentada poderia sugerir que "Spartan" se trata de um banalíssimo filme de acção saído das majors norte-americanas, pronto a ser visto e esquecido pelos espectadores de fim-de-semana como mais um blockbuster oco e vazio de conteúdos, mas cheio de explosões, tiros, perseguições de automóveis e mulheres de corpos esculturais. A trailer também dá essa sensação. Mas há um nome na ficha técnica que nos convida a olharmos com (bem) mais atenção: David Mamet.

É a pista certa para entrarmos no filme. Não é a primeira vez que o célebre dramaturgo/encenador e argumentista/realizador experimenta a sua mão no thriller (veja-se o hitchcockiano "House of Games - Jogo Fatal"), e se pensarmos que muitos dos deliciosos (e ácidos) diálogos de "Manobras na Casa Branca" de Barry Levinson são da sua autoria, não é de admirar que este seu regresso ao género surja temperado com uma dose bem forte de crítica política. De facto, "Spartan" não é só um thriller emocionante e extremamente bem construido - é, também, uma reflexão irónica sobre o actual clima político norte-americano, sobre a ilusão das aparências (um tema muito querido a Mamet), sobre a degeneração da família tradicional, sobre a manipulação política a e obediência cega imposta pela instituições militares aos seus soldados. Nesse sentido, a invocação da mitologia do rei Leónidas de Esparta (que enviava um só homem para atacar de surpresa os seus adversários em detrimento de mandar batalhões inteiros) na figura de Scott resulta tanto mais poderosa.
À semelhança de "Jogo Fatal", o argumento é construído como o acto de descascar uma cebola, expondo camada após camada e revelando, de cada vez, um novo e inesperado caminho para a história. A mestria de Mamet está na maneira como cria os "twists" com a maior das verosimilhanças, bem como no modo como brinca com as emoções dos espectadores com cada nova reviravolta. Joga sabiamente com algumas convenções do thriller e do filme de acção, não caindo em nenhuma das armadilhas que uma tal "mistura" poderia originar.

E, depois, há os diálogos. No seu livro "On Directing Film", Mamet expõe uma teoria acerca da narrativa cinematográfica que tem deixado mais do que uma pessoa ligeiramente baralhada: "Basicamente, o filme perfeito não tem diálogos. Deve-se sempre ter como objectivo fazer-se um filme mudo"* Estas afirmações podem parecer irónicas para quem já tenha ouvido as frases sonantes ditas pelas personagens de obras como "State & Main". No entanto, nesse mesmo parágrafo, Mamet também diz que "...se estamos a contar a história com as imagens, então os diálogos são a cobertura por cima do gelado". Assim o é em "Spartan". Porque se realmente os diálogos desempenham um papel crucial na composição das personagens e no avanço da narrativa, também é verdade que a sua eficácia é possível graças a uma découpage minuciosamente pensada, a uma direcção de fotografia impecável, a uma montagem precisa e a uma música de fundo que estabelece perfeitamente o ambiente.

Há também que referir o soberbo trabalho dos actores. Val Kilmer tem aqui aquele que é muito provavelmente o melhor dos papéis que desempenhou nos últimos anos, sendo que Derek Luke, Tia Texada e Kristen Bell têm todos composições acima da média. Lamenta-se, simplesmente, que a personagem de William H. Macy (bem mais importante do que parece) não seja mais explorada e, por consequência, não tenha mais tempo no ecrã. A interpretação de Macy é correcta a todos os níveis, e chega mesmo a proporcionar-nos alguns momentos excelentes, mas como contraponto à personagem de Scott, acaba por não ter o desenvolvimento que se desejaria.
Não que isso prejudique tremendamente o resto do filme. Continua a ser um dos títulos mais interessantes actualmente em sala e um thriller notável.
Spartan - O Rapto (Spartan)
Thriller, EUA, 2004
Argumento e realização: David Mamet
Elenco: Val Kilmer, Tia Texada, Derek Luke, Kristen Bell, William H. Macy.
Produção: David Bergstein & Moshe Diamant
Dir. de fotografia: Juan Ruiz Anchía
Música: Mark Isham
Montagem: Barbara Tulliver
Som: Felipe Borrero
* A tradução livre é da minha autoria, visto que o livro "On Directing Film" nunca foi publicado em Portugal. Para quem a quiser arranjar (vale bem a pena), a edição em língua inglesa da Penguin Books ainda está disponível no site da Amazon britânica.
Só umas poucas palavras sobre "Wanda"
No entanto, a memória da interpretação de Loden enquanto irmã outsider de Warren Beatty no maravilhoso "Esplendor na Relva" continua a ser marcante...
sábado, agosto 21, 2004
"O Regresso" do cinema Russo

A vida de Andrei (Vladimir Garine) e Ivan (Ivan Dobronravov), dois irmãos em fase de início de adolescência, é completamente abalada quando o seu pai (Konstantin Lavronenko) aparece em casa após uma ausência inexplicada de 12 anos. Tudo o que sabem acerca dele é que é (ou foi) piloto, e a única memória que retêm deste estranho homem é uma fotografia tirada há mais de dez anos. A aparente frieza que o pai mantém para com os seus filhos não parece oferecer grandes esclarecimentos. No entanto, este regresso não será um mero retorno a casa: Andrei e Ivan partem com o seu pai numa viagem com o suposto objectivo de recuperarem o tempo perdido. No entanto, as "férias" que terão com o pai serão muito diferentes do que alguma vez poderiam imaginar...

"O Regresso" chegou a Portugal transportado numa verdadeira avalanche de elogios onde não faltavam citações a praticamente todos os grandes cineastas russos do passado (sobretudo Tarkovski e Kulechov), e carregando consigo o prestígio do Leão de Ouro do Festival de Veneza do ano passado. Ainda assim, as poucas imagens que se vêem por aí poderiam sugerir que se tratava de um filme essencialmente contemplativo, de grande beleza visual mas de um possível vazio narrativo. Felizmente, está muito longe de ser o caso. "O Regresso" é uma das estreias mais estimulantes deste Verão e, para variar, dá mesmo para acreditar na hype de que se trata de um dos melhores filmes Russos das últimas décadas!
Se é verdade que a qualidade do notável trabalho do director de fotografia Mikhail Krichman salta à vista desde os primeiros planos do filme, não é (apesar de tudo) nela que encontraremos os maiores prazeres. A primeira sequência, onde um grupo de rapazes testa a sua "virilidade" numa competição privada de mergulho e onde o pequeno Ivan é gozado por não querer saltar para a água gelada, imediatamente estabelece o tom e lança a temática que o súbito retorno do pai só vem confirmar e aprofundar: trata-se de um filme sobre o crescimento no masculino e, também, sobre um conflito entre duas gerações de homens muito diferentes. Não é por acaso que as únicas mulheres neste filme, a mãe (figura essencialmente protectora, como podemos ver no início) e a avó (completamente apagada em segundo plano) estejam ausentes no resto da história, e nem a empregada do restaurante tem qualquer função que não a de dar a oportunidade ao Pai de ensinar algumas boas maneiras a Andrei.

O argumento, tal como a figura do Pai, assenta em poucos diálogos (a maioria e os mais extensos pertencem aos dois irmãos), optando por expressar as suas ideias através das pequenas insinuações do pouco que é dito, do que não é dito e dos momentos de silêncio. Recusa-se a fazer qualquer separação maniqueísta das personagens, evitando a tentação de tornar o pai no "vilão" da história, conseguindo assim fugir a quaisquer estereótipos e conferir uma enorme profundidade e um certo mistério às três personagens masculinas. Isto porque em vez de nos brindar com as respostas a todas as perguntas, prefere dar-nos pistas e deixar outras questões no ar. É uma aposta díficil, mas definitivamente ganha.
Há espaço para alguma crítica social (nomeadamente no modo como é sugerida a pobreza de diversas partes da sociedade russa), mas é na composição de personagens que se marcam alguns dos maiores pontos. O Pai é um homem no sentido mais "tradicional" do termo: másculo, reservado, autoritário, seguríssimo de si, absolutamente víril e com uma enorme dificuldade em expressar qualquer tipo de carinho. A viagem para a qual parte com os seus filhos será uma espécie de ritual de iniciação onde procurará, com métodos muito pouco usuais, transmitir os seus valores e fazer deles uns "Homens". No entanto, se Andrei ainda se identifica minimamente com o seu pai, esta sua atitude vai suscitar um confronto com Ivan que destabilizará tudo e que constituirá o principal ponto de interesse da história. Para isso muito contribuem as excelentes interpretações de todo o elenco, estando os três actores principais completamente à altura uns dos outros. É, portanto, de lamentar ainda mais a morte precoce de Vladimir Garine (morreu afogado no lago onde decorreu uma parte das filmagens, pouco depois destas terminarem), que certamente ainda teria muito a dar à 7ª arte. Resta-nos a esperança de Ivan Dobronravov e a já confirmada capacidade de Konstantin Lavronenko. O que não é pouco.

Há que sublinhar, muito especialmente, a estreia na realização de Andreï Zviaguintsev, um antigo actor que consegue revelar uma maturidade absolutamente impressionante para uma primeira obra. Num filme em que podia muito facilmente cair na tentação de se limitar a justapor uma quantidade de imagens bonitas na vaga esperança de fazer "poesia", o realizador consegue contar uma história sobre o crescimento com uma enorme segurança e, ao mesmo tempo, realmente ser poético. É, aliás, na découpage e na montagem que Zviaguintsev revela uma enorme noção de ritmo, um conhecimento muito preciso de quais planos se devem prolongar e quais se devem cortar mais cedo. O resultado é uma dilatação do tempo extraordinariamente conseguida, capaz de nos fazer passar as emoções das personagens sem alguma vez despertar o tédio e a monotonia.

"O Regresso" é um filme onde o frio parece transpor o grande ecrã e invadir-nos e, no entanto, consegue também ser de um enorme calor humano, chegando a proporcionar-nos vários momentos de um humor discreto que nos fazem sentir que estamos perante seres humanos e não meras personagens de uma ficção encenada. E não esqueçamos a música de Andrei Dergatchev, subtil e poderosa ao mesmo tempo. A enigmática sequência final é o derradeiro murro no estômago, deixando-nos a tarefa de interpretar as (belíssimas) imagens que desfilam diante dos nossos olhos muito depois dos créditos acabarem de rolar. Exercício a que nos dedicamos com prazer, tal é o fascínio que o filme deixa em quem o vê.
O Regresso (Vozvrashcheniye)
Drama, Rússia, 2003.
Realização: Andreï Zviaguintsev
Argumento: Vladimir Moiseyenko & Aleksandr Novototsky
Elenco: Ivan Dobronravov, Konstantin Lavronenko, Vladimir Garine, Natalia Vdovina, Galina Petrova
Produção: Dmitri Lesnevsky
Produção executiva: Yelena Kovalyova
Dir. de fotografia: Mikhail Krichman
Música: Andrei Dergatchev
Montagem: Vladimir Mogilevsky
Som: Andrei Khudyakov
Tradução: Sara David Lopes (a partir da versão inglesa)
sábado, agosto 14, 2004
Dossier: A Questão Michael Moore - Operação Toucinho Canadiano (Parte IV de VI)
Depois da sua incursão no documentário cinematográfico com “Roger & Eu” e no mundo da TV com a primeira temporada de “TV Nation”, Michael Moore decidiu largar (temporariamente) a sua veia documentarista e experimentar a ficção com uma sátira política completamente nonsense – chamou-se por cá Operação Toucinho Canadiano. E não resultou tão bem quanto isso nem na bilheteira nem na página da crítica de cinema.

O plot é simples: o presidente dos Estados Unidos da América (Alan Alda) depara-se com uma situação de impopularidade tremenda. As eleições não estão muito distantes e se algo não for feito rapidamente, o partido arrisca-se a uma estrondosa derrota. O que fazer então para distrair a atenção do público Americano e garantir uma subida de popularidade? Declarar uma guerra fria ao Canadá (isto porque os Russos estão numa de investir nas infra-estruturas e na educação e não têm nem tempo nem dinheiro para mais uma guerra fria...)! O problema é que o que começa como sendo simplesmente uma “guerra de papel” acaba por descambar numa guerra a sério quando o xerife Bud Boomer (o falecido John Candy) e a sua amada Honey decidem fazer justiça pelas suas próprias mãos e realizarem a sua própria invasão ao Canadá!
Se em “Bowling for Columbine” Michael Moore viria a abordar os temas da cultura do medo, da influência das indústrias de armamento e o contraste entre as realidades sociais norte-americanas e canadianas, bem que se pode dizer que já neste filme se assistia a um “ensaio” de tais temáticas. O realizador brinca com os estereotipos que existem sobre americanos e canadianos, usando-os para efeito cómico - o povo norte-americano (mas, sobretudo, o poder político e militar norte-americano) é retratado como sendo completamente ignorante da realidade do seu país vizinho, enquanto que o Canadá é apresentado como um país de pessoas de uma boa vontade inacreditável, incapazes de ficarem violentos mesmo perante os maiores insultos... a não ser que estes sejam dirigidos à sua cerveja ou equipa de hóquei nacional!

O que falha no filme é o seu (assumido) exagero burlesco. Embora Moore queira criar uma farsa política na onda de “Dr. Estranhoamor” de Stanley Kubrick, muitas das suas qualidades acabam por se perder nalguns gags mais óbvios e básicos. A ideia da “criação de uma guerra a todo o custo” para reconquistar as eleições é original, mas seria melhor explorada em filmes como “Manobras na Casa Branca” de Barry Levinson; enquanto que a invasão do Canadá seria retomada em moldes ainda mais ácidos no delicioso "South Park - O Filme" de Trey Parker e Matt Stone (que, por acaso, até são amigos de Moore). No entanto, há que realçar alguns diálogos particularmente inteligentes que por vezes vão surgindo, como é o caso daquele semi-profético em que o presidente dos EUA despreza completamente a possibilidade de existirem ameaças terroristas!
Não é um filme excepcional, e é a confirmação de que Moore é muito mais um documentarista do que um ficcionista. Mas não deixa de ser um filme curioso, com alguns pontos fortes que tornam o seu visionamento bastante agradável.

Já agora, mantenham os olhos bem abertos e estejam atentos durante todo o filme: entre outros, há para descobrir cameos de James Belushi (como um reporter de TV para a “NBS”), Dan Aykroyd (num pequeno mas hilariante papel como polícia canadiano) e do próprio Michael Moore como um manifestante que idolatra Bud Boomer!
Operação Toucinho Canadiano (Canadian Bacon)
Comédia, 1995, EUA.
Argumento e realização: Michael Moore
Elenco: John Candy, Alan Alda, Rhea Pearlman, Kevin Pollack, Rip Torn, Kevin J. Connor,
Produção: David Brown, Ron Rotholz, Michael Moore
Dir. de fotografia: Haskell Wexler
Música: Elmer Bernstein & Peter Bernstein
Montagem: Wendy Stanzler, Michael Berenbaum
Disponibilidade:
O filme já passou no Canal Hollywood algumas vezes, e o IMDB atribui-lhe um certificado de “para maiores de 12 anos” para o território Português, mas desconheço qualquer edição nacional em DVD do mesmo.

Quem procurar edições estrangeiras também não terá muito por onde escolher: as edições americanas, inglesas e francesas são praticamente iguais (só a inglesa é que dispensa umas legendas em espanhol e francês) e, de conteúdos adicionais, só têm mesmo a trailer...
quinta-feira, agosto 12, 2004
Dossier: A Questão Michael Moore - Roger & Eu (parte III de VI)

Em 1987, Roger Smith, chairman da General Motors, decidiu, em pleno apogeu económico da empresa construtora de automóveis, fechar a fábrica localizada em Flint, no Michigan. Desse encerramento resultou o despedimento de mais de 40.000 empregados e o início do caos social na pequena cidade. Michael Moore, habitante de Flint que na altura se encontrava desempregado, decidiu não ficar passivo perante esta situação e, após juntar algum dinheiro ao organizar jogos comunitários de bingo na sua casa (!), pegou numa pequena equipa de filmagens que conhecera dos seus tempos de jornalista e partiu numa missão muito peculiar: fazer um documentário onde se mostrasse as consequências desastrosas do encerramento injustificado da fábrica e, ao mesmo tempo, contactar directamente com Roger Smith e convidá-lo a visitar Flint para lhe mostrar o impacto da sua decisão na vida dos habitantes da sua terra natal. Nunca conseguiu falar com Roger. Mas fez um dos documentários mais marcantes dos anos 80.
Quando estreou em 1989, “Roger & Eu” causou um burburinho considerável nos EUA. Pela primeira vez em muito tempo, a “América dos pequeninos” via no grande ecrã um dos seus a fazer frente ao patrão de uma grande corporação, munido unicamente de uma câmara e um sentido de humor ácido, e a conseguir dar uma luta impressionante! Embora o próprio poster não deixe quaisquer dúvidas de que Moore nunca irá encontrar-se com Roger, o que cativa o espectador não é (só) as tentativas frustradas de Moore de chegar ao último andar da sede da GM para falar com o poderoso chefão – é que entre esses momentos, Moore faz um fresco da situação na sua cidade natal que é das mais sinceras e perturbadoras viagens à América do interior jamais registadas em película.

Somos confrontados com o contraste da despreocupação dos ricos (que organizam festas onde alguns desempregados fazem de estátuas humanas, não fazendo sequer ideia de que Flint está a passar por uma crise social) e o brutal despejo de várias famílias das suas casas (uma das quais em pleno dia de Natal...) pela parte de um Xerife-adjunto que diz honestamente que só está a fazer o seu trabalho. Há também a senhora que combate a pobreza vendendo coelhinhos como “animais de estimação ou como comida”, não tendo qualquer dificuldade em abater e esfolar os ditos animais em frente à câmara naquela que foi (ridiculamente) a cena mais contestada de todo o filme. Pelo caminho, também fazemos uma viagem ao passado de Flint, que em tempos foi uma dos maiores representantes do “Sonho Americano” e, na altura em que o documentário foi rodado, foi eleita pela “Fortune Magazine” como a mais pobre cidade dos EUA.
O que mais toca é a evidente identificação que Moore tem com as pessoas da sua cidade natal. “Roger & Eu” pode ter inúmeros momentos que nos fazem rir, mas é sempre um riso amargo. Trata-se de um documentário pessoalíssimo (não é por acaso que o filme, até no título, está narrado na primeira pessoa do singular) sobre uma situação extremamente dolorosa para o seu autor, e o humor apresentado é sobretudo irónico e reflexivo. Não sabemos por vezes se havemos de rir com o ridículo que é assistir à inauguração em Flint de uma prisão onde as pessoas são convidadas “a passar uma noite dentro” para comemorar a ocasião ou a ficar imensamente furiosos com o facto das coisas terem chegado a um ponto onde situações como esta não pertencem ao campo do surreal!

No fim do dia, Moore pode não ter conseguido fazer com que Roger Smith assistisse pessoalmente ao estado das coisas em Flint, nem ter feito com que os desempregados da sua cidade recuperassem os seus empregos. Mas conseguiu dar-lhes voz e fazer com que os espectadores do resto do mundo conhecessem e reflectissem sobre a sua situação. E essa é a maior vitória do filme.
Roger e Eu (Roger and Me)
Documentário, 1989, EUA.
Argumento, produção e realização: Michael Moore
Co-Produtora: Kathleen Glynn
Operador de Câmara: Christopher Beaver, John Prusak, Kevin Rafferty e Bruce Schermer.
Montagem: Wendey Stanzler & Jennifer Beman
Cor, 87 minutos.
Disponibilidade:
Tragicamente, a primeira obra de Moore permanece inédita em solo português, isto tanto em DVD como em VHS, embora já tenha, inclusive, recebido honras de passar na televisão há vários anos (na SIC, se a memória não me falha...), muito antes de Michael Moore ser MICHAEL MOORE.
No entanto, não é difícil encontrar nas FNACs nacionais o DVD francês da Warner Brothers (“Roger et Moi”) que, como mais valia para quem não for grande conhecedor da língua de Molière, vem abastecido de legendas em Inglês, Alemão, Sueco, Norueguês, Dinamarquês, Finlandês e... obviamente, Francês! Nada de legendas em português, mas sempre é melhor que nada! Ah, e também há no disco umas dobragens em Francês e Alemão, mas todos sabemos que a versão original é aquela que vamos querer ouvir!
É uma edição praticamente desprovida de extras, mas felizmente temos, para nos consolar, a trailer original para as salas de cinema e (mais relevantemente) um comentário de áudio do próprio Michael Moore que deverá ser do interesse de todos que queiram saber mais sobre a concepção do filme.
Existem também as versões norte-americanas e inglesas deste disco, sendo a primeira igual à francesa em termos de conteúdos (mas com menos legendas por onde escolher) e a segunda bastante inferior, já que contém o filme e... nada mais!
É só uma pena que em nenhuma destas edições se tenha incluído também a curta-metragem documental “Pets or Meat: The Return to Flint”, um especial de 24 minutos feito para a TV, documentando o que acontecera aos habitantes de Flint três anos depois da conclusão de “Roger e Eu”.
A Emissão prossegue dentro de momentos...
O post referente à primeira longa-metragem de Michael Moore, "Roger & Eu", será publicado dentro de breves instantes...
segunda-feira, agosto 09, 2004
Dossier: A Questão Michael Moore - Fahrenheit 9/11 (parte II de VI)

“Fahrenheit 9/11” começa com o mesmo ponto de partida do livro “Stupid White Men”: regressamos a 2000, no dia das eleições para a Presidência dos EUA. Al Gore é anunciado como sendo presidente mas, pouco tempo depois, é a FOX quem revela que a contagem dos votos, na realidade, dá a vantagem a Bush. Os restantes média apressam-se a dar-lhe razão. Gore já não é presidente, e Bush entra na Casa Branca à chuva de ovos e tomates de inúmeros manifestantes que contestam a sua eleição. Terá sido tudo um sonho? Um pesadelo? Ou simplesmente a realidade?
O mais recente filme de Michael Moore assume-se desde logo como sendo “Anti-Bush”. Quem vai vê-lo não deve esperar encontrar aqui uma visão jornalistica do tema, mas sim uma tese sobre o fracasso berrante de uma administração que teve como lema o “conservadorismo compreensivo”. É talvez o filme mais criticado de Moore, mesmo entre os seus habituais admiradores. É também aquele em que o realizador aparece menos no ecrã, sendo que a maior parte daquilo que vemos são imagens de arquivo montadas sobre uma ordem específica e “narradas” pela voz de Moore.

Manipulação? Mas o que é o cinema senão a arte da manipulação dos sons e das imagens? Basta colocar um plano ao lado de outro para existir manipulação, por muito pequena que seja. Quanto à alegada manipulação de factos, é o próprio Moore que desafia quem encontrar incoerências para as denunciar publicamente de modo a ganhar uma recompensa choruda. De resto, os elementos factuais ditos “falsos” por muita gente têm sido prontamente desmentidos no site “The Facts in 9/11”.
É filme para Americano ver? Provavelmente. É, afinal, na população norte-americana que Moore espera que o seu documentário faça o maior efeito. Propaganda? O Grande Dicionário da Língua Portuguesa do Círculo de Leitores define «propaganda» como sendo “Acção de propagar ideias, princípios, conhecimentos, teorias, divulgação, evangelização Associação encarregada de vulgarizar certas doutrinas”. Estranhamente, não vejo no filme a apologia de uma ideologia específica, nem a defesa de um partido em particular (Moore também nunca foi generoso com os democratas – vide “The Big One”) nem sequer uma divisão maniqueista do mundo em “bons” e “maus” – vejo, isso sim, uma crítica dura e impiedosa a uma administação e ao seu presidente. Crítica essa com que podemos concordar ou discordar (o filme NUNCA passa a ideia de que quem não concorda com as teorias expressas nele é estúpido!). De resto, que não haja dúvidas: o filme respeita todas as regras do documentário.*

Mas pondo estas questões de propaganda de parte, podiamos perguntar-nos se o filme tem ou não algum valor artistico, independetemente da mensagem que quer transmitir. Parece-me que, neste ponto, é que muita da crítica existente tem sido particularmente injusta, pois “Fahrenheit 9/11” consegue mesmo ser um belíssimo documenário. Desde a soberba sequência de créditos (onde vemos os membros principais da administração Bush a serem maquilhados como se fossem actores a prepararem-se para o início da peça), passando pela parte em que Moore tenta (sem sucesso) convencer membros do congresso a alistarem os seus filhos para a guerra no Iraque até ao plano final em que Bush se vê incapaz de dizer o velho ditado “Fool me once, shame on you; fool me twice, shame on me” que o estilo é provocador, extremamente crítico mas sempre lúcido e coerente. E francamente muito bem construído.
O filme consegue mesmo momentos belíssimos de montagem – quem o acusa de oportunista é porque deveria estar distraído durante a cena em que se “mostra” o embate nas Torres Gémeas dos aviões unicamente através do som e, posteriormente, de imagens de várias pessoas e olhar para off, onde a desgraça ocorreu. Cineastas menos habilidosos certamente não teriam resisitido à tentação de ir buscar as mais que revistas imagens dos choques – Moore escolhe a decência de nos poupar de tais obscenidades. Ninguém parece ter reparado nisso.

Há alturas onde Moore quase que pisa o risco – quando a mãe de um soldado morto no Iraque lê a última carta enviada pelo seu filho, perguntamo-nos por vezes se não estamos a entrar no campo do voyeurismo. A posteriori, parece-me que a escolha de Moore de colocar essa cena na íntegra faz todo o sentido, já que era necessário mostrar as consequências da guerra no Iraque, por muito dolorosas que fossem. Mas não esqueçamos outros momentos memoráveis/perturbantes do filme - o impasse de Bush ao ser informado de que o país está a ser atacado enquanto lia um livro infantil a um grupo de crianças (a voz-off de Moore, ao contrário do que já foi escrito por aí, não nos diz o que o presidente estava a pensar, apenas faz suposições baseadas nas suas expressões faciais...); a realidade desoladora da vida dos jovens "voluntários" que participaram na guerra do Iraque, bem como os curiosos métodos de recrutamento usados pelas instituições militares dos EUA para os convencer a alistar-se; o choque que é saber que a maioria dos congressistas que aprovaram o "Patriot Act" nem sequer o tinham lido; etc. Nestas sequências, como é típico na obra de Moore, o riso (irónico) vai de mão dada com a reflexão.
Mereceu a Palma d’Ouro? Na minha sincera opinião, sim, mereceu. Controvérsia... Que controvérsia?
Fahrenheit 9/11
Documentário, 2004, EUA.
Argumento e realização: Michael Moore
Produção: Michael Moore, Kathleen Glynn & Jim Czarnecki.
Produtores executivos: Harvey Weinstein & Bob Weinstein.
Dir. de Fotografia: Mike Desjarlais; Imagens adicionais: Kirsten Johnson & William Rexer.
Música: Jeff Gibs & Bob Golden.
Montagem:Kurt Engfehr, Todd Woody Richman & Chris Seward.
Disponibilidade:
O filme está actualmente em exibição nos cinemas portugueses.
*Já que falamos de propaganda, lembremos um pequeno episódio do passado. Howard Hawks filmou, logo a seguir ao ataque de Pearl Harbour, um filme de ficção chamado “Air Force - Águias Americanas”. Nele, os japoneses são retratados como sendo monstros - quando os seus aviões são abatidos por caças americanos o ambiente é de festa, e há até uma tentativa de comic-relief personificada num cachorrinho de nome “Tripoli” que, muito “sabiamente”, só ladra quando lhe dizem nomes japoneses como “Moto”. É propaganda no seu estado mais puro – há bons (os americanos) e maus (os japoneses), os maus são monstros imperdoáveis e desuhamanos, os bons são modelos de virtudes (e a única personagem que começa por não o ser acaba por se redimir lá para o fim) e, claro, o bem ganha sempre. Mesmo que essa vitória do bem consista em bombardear Tóquio... No entanto, é difícil encontrar hoje quem ouse dizer mal do filme e de chamar de faccioso a Howard Hawks. Afinal, o homem é (muito justamente) o génio por detrás de obras-primas como “Rio Bravo” ou “Os Homens Preferem as Loiras”. Pelo contrário, elogia-se a (inegável) qualidade técnica do filme, que é formidável sobretudo tendo em conta o ano em que foi produzido e a rapidez em que foi feito. E além disso, ninguém esquece que foram as cenas de combate de caças deste filme que influenciaram George Lucas na concepção dos brilhantes combates especiais entre Tie-Fighters e StormTroopers no seu mítico “A Guerra das Estrelas”. Do lado de propaganda já ninguém parece querer saber. O nome de Hawks é superior a isso tudo.